sábado, 8 de julho de 2023

HÁ 91 ANOS, EM 9 DE JULHO DE 1932.

 


A população de SÃO PAULO demorou a notar que havia um levante em marcha naquele NOVE DE JULHO DE 1932. Era uma típica noite paulistana de sábado e as ruas do centro estavam animadas, com aquele aspecto cosmopolita que tanto agradava aos paulistas, orgulhosos de sua metrópole de um milhão de habitantes. Nos cinemas lotados, alguns assustavam-se com O VAMPIRO DE DUSSELDORF, que estreava no ODEON, enquanto outros optavam por MARLENE DIETRICH em O EXPRESSO DE SHANGAI, no PARAMOUNT. O TEATRO BELA VISTA apresentava uma companhia portuguesa e prometia para breve a volta de PROCÓPIO FERREIRA, com suas piadas sobre GETÚLIO, chefe do GOVERNO PROVISÓRIO, que o público considerava “impagáveis”. Os bares e cafés ainda fervilhavam, enfumaçados, quando, por volta das 22 horas, começaram os primeiros movimentos de tropas. Chamou a atenção que, pouco depois, alunos da FACULDADE DE DIREITO, no LARGO SÃO FRANCISCO, começaram a circular com fuzis a tiracolo. Pela meia-noite, tropas da FORÇA PÚBLICA ocupavam os CORREIOS e, em seguida, a TELEFÔNICA.

Eram os primeiros movimentos ostensivos de uma revolução marcada pela paixão com que o povo de SÃO PAULO se atirou a uma luta que foi ficando mais desigual e sangrenta à medida que aumentavam as traições à causa que a levou ao combate: depor o governo VARGAS e reconstitucionalizar o País.

O QUE FOI 32?

PAULO BOMFIM

Foi a soma dos sonhos e do sacrifício de um povo, a confraternização de raças e condições sociais no batismo das trincheiras; o esforço das indústrias, o desprendimento do comércio, a grandeza de uma causa, a generosidade dos moços, a participação dos cabelos brancos, o entusiasmo das crianças, a força que vem da mulher-terra paulista, o verbo dos poetas e dos tribunos, dos jornalistas e dos sacerdotes; a sacralidade da lei, o fuzil ao lado do livro, a trincheira continuação da escola, a caserna dependência do lar, o campo de batalha, sementeira de justiça!

O que foi 32?

Foi bandeira que voltou do passado, passado que se transformou em bandeira, bênção de Anchieta e de Frei Galvão, vigília de João Ramalho, grito de guerra de Tibiriçá, inspiração de Bartira, presença dos que partiram, convocação do amanhã, cocar-capacete de aço, gibão que virou farda cáqui, canoa monçoeIra transformada em trem blindado, mortos e vivos marchando, igreja, escola, oficina em batalhões rezando a mesma oração, prece de amor e esperança, holocausto e clarinada, asa de glória gravando no sangue das gerações:

Enquanto houver injustiça,

Enquanto houver sofrimento,

Enquanto a terra chorar,

Enquanto houver pensamento,

Enquanto a história falar,

Enquanto existir beleza,

Enquanto florir paixão,

Enquanto o sonho for sonho,

Enquanto o sangue for sangue,

Enquanto existir saudade,

Enquanto houver esperança,

Enquanto os mortos velarem,

- É sempre 9 de julho!

 

91 a. MOVIMENTO CONSTITUCIONALISTA DE 1932. Uma das canções mais expressivas exaltando a revolução, traduzindo a história de uma mãe que perdeu seu único filho, imolado nas duras refregas do TÚNEL, é a canção intitulada NA SERRA DA MANTIQUEIRA. O jovem havia se alistado para defender os ideais constitucionalistas dos Bandeirantes. Muitas outras mães choraram seus filhos mortos na cruenta revolução, que vitimou brasileiros dos dois lados, num total de 830 (630 do lado dos paulistas e 200 do lado dos ditatoriais). Ei-la:

Na Serra da Mantiqueira                         

Sob a fronde da Mangueira                    

Que ela em moça viu plantar                 

Sentadinha no seu banco                       

Traçando o cabelo branco                      

Mãe Maria vai sonhar                              

 

Dos amores do passado                         

Só lhe resta um filho amado                   

Que lhe dá felicidade                               

Ela é todo o seu encanto                          

Alegria o fruto santo                           

Da longínqua mocidade                      

 

E nas nuvens que correndo                

E vão no céu aparecendo                               

Pra no ocaso descansar                      

Ela vê seus belos dias                         

De venturas e alegrias                          

Que jamais hão de voltar                     


Eis porém que veio a guerra

abalando toda a serra

Com o rugido do canhão

Mãe Maria amargurada

Vê seu filho lá na estrada

Se sumir no batalhão


Segurando seu rosário

No seu banco solitário

Mãe Maria reza agora

Pede a DEUS ardentemente

Que lhe mande o filho ausente

Que já tanto se demora


E numa tarde ao sol  poente

Ela escuta de repente

A voz meiga do rapaz

Que lhe diz tal como em vida

Muito em breve Mãe querida

Lá no céu me encontrarás.  

 (Essa canção foi publicada nas CLARINADAS DA TABATINGUERA, jornal da AORRPM, por iniciativa do Coronel Ref EDILBERTO DE OLIVEIRA MELO.). No dia 6 de julho de 2009, em magistral cerimônia da comemoração dos 77 anos da Revolução Constitucionalista, com a entrega do COLAR CARLOS DE SOUZA NAZARETH, o CORAL BACARELLI executou essa canção. Novamente o mesmo Coral executou a canção durante sessão solene na Assembléia Legislativa em 2 de julho de 2012.

Palavras de EUCLIDES FIGUEIREDO: “Apesar de fria a noite, abrimos as janelas da limousine em que viajávamos, para facilitar qualquer reação. Eram sete homens decididos a arrostar tudo para chegar a tempo aonde nos levava a palavra empenhada: o CAPITÃO RIBEIRO DA COSTA; TENENTES JOSÉ LOBO, JOAQUIM CAMARINHA e MARIO GOULART; os civis JOÃO DARÉ e MÁRIO CABRAL. Na manhã seguinte (quer dizer, 9 de julho) partiram de trem o CORONEL PALIMÉRCIO, Doutor LUÍS GUIMARÃES, deixados para trás com a missão de avistar outros companheiros que com a pressa não puderam ser alertados. No mesmo trem ainda sem se falarem viajavam outros oficiais integrados na causa, o civil FRANCISCO ANTUNES JÚNIOR e o meu filho mais velho GUILHERME, que iludira na madrugada a vigilância dos policiais que já cercavam a minha casa. Primeiroanista de Direito, ia receber sua melhor aula de Direito Público e de amor à democracia.”

Às quatro horas da madrugada daquele mesmo dia, em que logo a noite se cobriria de glória o comandante da arrancada de “9 de Julho”, iniciava a ronda pelas guarnições do Norte do Estado, que horas depois estariam sob suas ordens. Avistou-se com o CAPITÃO LUÍS DE ANDRADE FARIA, comandante do 1º Batalhão do 5º RI, em PINDAMONHANGABA, deixando recado ao MAJOR QUINTILIANO DE CASTRO E SILVA, em CAÇAPAVA, manteve longa e decisiva conferência com o CORONEL JOSÉ JOAQUIM DE ANDRADE, que desempenharia função de relevo no VALE DO PARAÍBA. Conclui FIGUEIREDO: “Dali (CAÇAPAVA), sem mais preocupações sobre aquele ponto importante, urgia continuar para a capital do Estado, onde os mais sensacionais acontecimentos nos aguardavam. E lá chegamos por volta das 9 horas da manhã do dia 9 de julho, sem pensar que naquele mesmo dia eu seria chamado a desempenhar o saliente papel que a confiança dos camaradas de armas e dos civis nossos amigos, secundados pelo povo do heróico Estado me reservava: o de fazer eclodir e comandar o mais brilhante movimento cívico da história do Brasil republicano.”

No segundo trem noturno do dia 9 de julho, embarcou na Estação do RIO DE JANEIRO, o GENERAL JOSÉ LUIZ PEREIRA DE VASCONCELOS, novo comandante da 2ª RM, em SÃO PAULO. Desembarcava em CAÇAPAVA e aderia à Revolução Constitucionalista. A FORÇA PÚBLICA DE SÃO PAULO, braço forte do Exército Constitucionalista, era comandada pelo CORONEL JÚLIO MARCONDES SALGADO. As tropas paulistas no VALE DO PARAÍBA foram comandadas pelo CORONEL FIGUEIREDO, que contava com três destacamentos: o do CORONEL ANDRADE, o do CORONEL PAIVA SAMPAIO e do CORONEL ABÍLIO DE RESENDE. A FRENTE NORTE esteve a cargo da FORÇA PÚBLICA (DESTACAMENTO ROMÃO GOMES) e a FRENTE SUL a cargo do DESTACAMENTO BRASÍLIO TABORDA.

A respeito do MOVIMENTO CONSTITUCIONALISTA disse MENOTTI DEL PICCHIA – “O MAIS BELO E COMOVENTE MOVIMENTO DA HISTÓRIA DAS AMÉRICAS E QUIÇÁ DO MUNDO”.

MARTINS FONTES disse, enfático: “Em GUANABARA, sob o sol que amamos / Rebradaremos, com bravor febril / Nós, de SÃO PAULO, rebrasilizamos / Os Estados Unidos do BRASIL.”

GUILHERME DE ALMEIDA, poeta da Revolução, proclamou: “Bandeira que é o nosso espelho / Bandeira que é a nossa pista! / Que traz no topo vermelho / o coração do Paulista!”

A disciplina, no dizer do GENERAL CADORNA,”é a pedra angular de toda formação militar” e “deve pela colocação em segundo plano da tropa a preocupação individual, criar a cooperação de todos, colimando um fim único: a vitória”. Essa disciplina foi amplamente notada na Revolução Constitucionalista de 1932.

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