A
população de SÃO PAULO demorou a notar que havia um levante em marcha naquele
NOVE DE JULHO DE 1932. Era uma típica noite paulistana de sábado e as ruas do
centro estavam animadas, com aquele aspecto cosmopolita que tanto agradava aos
paulistas, orgulhosos de sua metrópole de um milhão de habitantes. Nos cinemas
lotados, alguns assustavam-se com O VAMPIRO DE DUSSELDORF, que estreava no
ODEON, enquanto outros optavam por MARLENE DIETRICH em O EXPRESSO DE SHANGAI,
no PARAMOUNT. O TEATRO BELA VISTA apresentava uma companhia portuguesa e
prometia para breve a volta de PROCÓPIO FERREIRA, com suas piadas sobre
GETÚLIO, chefe do GOVERNO PROVISÓRIO, que o público considerava “impagáveis”.
Os bares e cafés ainda fervilhavam, enfumaçados, quando, por volta das 22
horas, começaram os primeiros movimentos de tropas. Chamou a atenção que, pouco
depois, alunos da FACULDADE DE DIREITO, no LARGO SÃO FRANCISCO, começaram a
circular com fuzis a tiracolo. Pela meia-noite, tropas da FORÇA PÚBLICA
ocupavam os CORREIOS e, em seguida, a TELEFÔNICA.
Eram os
primeiros movimentos ostensivos de uma revolução marcada pela paixão com que o
povo de SÃO PAULO se atirou a uma luta que foi ficando mais desigual e
sangrenta à medida que aumentavam as traições à causa que a levou ao combate:
depor o governo VARGAS e reconstitucionalizar o País.
O QUE FOI 32?
PAULO BOMFIM
Foi a soma dos sonhos e do sacrifício de um
povo, a confraternização de raças e condições sociais no batismo das
trincheiras; o esforço das indústrias, o desprendimento do comércio, a grandeza
de uma causa, a generosidade dos moços, a participação dos cabelos brancos, o
entusiasmo das crianças, a força que vem da mulher-terra paulista, o verbo dos
poetas e dos tribunos, dos jornalistas e dos sacerdotes; a sacralidade da lei,
o fuzil ao lado do livro, a trincheira continuação da escola, a caserna
dependência do lar, o campo de batalha, sementeira de justiça!
O que foi 32?
Foi bandeira que voltou do passado, passado
que se transformou em bandeira, bênção de Anchieta e de Frei Galvão, vigília de
João Ramalho, grito de guerra de Tibiriçá, inspiração de Bartira, presença dos
que partiram, convocação do amanhã, cocar-capacete de aço, gibão que virou
farda cáqui, canoa monçoeIra transformada em trem blindado, mortos e vivos
marchando, igreja, escola, oficina em batalhões rezando a mesma oração, prece
de amor e esperança, holocausto e clarinada, asa de glória gravando no sangue
das gerações:
Enquanto houver injustiça,
Enquanto houver sofrimento,
Enquanto a terra chorar,
Enquanto houver pensamento,
Enquanto a história falar,
Enquanto existir beleza,
Enquanto florir paixão,
Enquanto o sonho for sonho,
Enquanto o sangue for sangue,
Enquanto existir saudade,
Enquanto houver esperança,
Enquanto os mortos velarem,
- É sempre 9 de julho!
91 a. MOVIMENTO CONSTITUCIONALISTA DE 1932. Uma das canções mais
expressivas exaltando a revolução, traduzindo a história de uma mãe que perdeu
seu único filho, imolado nas duras refregas do TÚNEL, é a canção intitulada NA
SERRA DA MANTIQUEIRA. O jovem havia se alistado para defender os ideais
constitucionalistas dos Bandeirantes. Muitas outras mães choraram seus filhos
mortos na cruenta revolução, que vitimou brasileiros dos dois lados, num total
de 830 (630 do lado dos paulistas e 200 do lado dos ditatoriais). Ei-la:
Na Serra da Mantiqueira
Sob a fronde da Mangueira
Que ela em moça viu plantar
Sentadinha no seu banco
Traçando o cabelo branco
Mãe Maria vai sonhar
Dos amores do passado
Só lhe resta um filho amado
Que lhe dá felicidade
Ela é todo o seu encanto
Alegria o fruto santo
Da longínqua mocidade
E nas nuvens que correndo
E vão no céu aparecendo
Pra no ocaso descansar
Ela vê seus belos dias
De venturas e alegrias
Que jamais hão de voltar
(Essa canção foi publicada nas
CLARINADAS DA TABATINGUERA, jornal da AORRPM, por iniciativa do Coronel Ref
EDILBERTO DE OLIVEIRA MELO.). No dia 6 de julho de 2009, em magistral cerimônia
da comemoração dos 77 anos da Revolução Constitucionalista, com a entrega do
COLAR CARLOS DE SOUZA NAZARETH, o CORAL BACARELLI executou essa canção.
Novamente o mesmo Coral executou a canção durante sessão solene na Assembléia
Legislativa em 2 de julho de 2012.
Palavras de EUCLIDES FIGUEIREDO: “Apesar de fria a noite, abrimos as
janelas da limousine em que viajávamos, para facilitar qualquer reação. Eram
sete homens decididos a arrostar tudo para chegar a tempo aonde nos levava a
palavra empenhada: o CAPITÃO RIBEIRO DA COSTA; TENENTES JOSÉ LOBO, JOAQUIM
CAMARINHA e MARIO GOULART; os civis JOÃO DARÉ e MÁRIO CABRAL. Na manhã seguinte
(quer dizer, 9 de julho) partiram de trem o CORONEL PALIMÉRCIO, Doutor LUÍS
GUIMARÃES, deixados para trás com a missão de avistar outros companheiros que
com a pressa não puderam ser alertados. No mesmo trem ainda sem se falarem
viajavam outros oficiais integrados na causa, o civil FRANCISCO ANTUNES JÚNIOR
e o meu filho mais velho GUILHERME, que iludira na madrugada a vigilância dos
policiais que já cercavam a minha casa. Primeiroanista de Direito, ia receber
sua melhor aula de Direito Público e de amor à democracia.”
Às quatro horas da madrugada daquele mesmo dia, em que logo a noite se
cobriria de glória o comandante da arrancada de “9 de Julho”, iniciava a ronda
pelas guarnições do Norte do Estado, que horas depois estariam sob suas ordens.
Avistou-se com o CAPITÃO LUÍS DE ANDRADE FARIA, comandante do 1º Batalhão do 5º
RI, em PINDAMONHANGABA, deixando recado ao MAJOR QUINTILIANO DE CASTRO E SILVA,
em CAÇAPAVA, manteve longa e decisiva conferência com o CORONEL JOSÉ JOAQUIM DE
ANDRADE, que desempenharia função de relevo no VALE DO PARAÍBA. Conclui
FIGUEIREDO: “Dali (CAÇAPAVA), sem mais preocupações sobre aquele ponto
importante, urgia continuar para a capital do Estado, onde os mais sensacionais
acontecimentos nos aguardavam. E lá chegamos por volta das 9 horas da manhã do
dia 9 de julho, sem pensar que naquele mesmo dia eu seria chamado a desempenhar
o saliente papel que a confiança dos camaradas de armas e dos civis nossos
amigos, secundados pelo povo do heróico Estado me reservava: o de fazer eclodir
e comandar o mais brilhante movimento cívico da história do Brasil republicano.”
No segundo trem noturno do dia 9 de julho, embarcou na Estação do RIO
DE JANEIRO, o GENERAL JOSÉ LUIZ PEREIRA DE VASCONCELOS, novo comandante da 2ª
RM,
A respeito do MOVIMENTO CONSTITUCIONALISTA disse MENOTTI DEL PICCHIA –
“O MAIS BELO E COMOVENTE MOVIMENTO DA HISTÓRIA DAS AMÉRICAS E QUIÇÁ DO MUNDO”.
MARTINS FONTES disse, enfático: “Em GUANABARA, sob o sol que amamos /
Rebradaremos, com bravor febril / Nós, de SÃO PAULO, rebrasilizamos / Os
Estados Unidos do BRASIL.”
GUILHERME DE ALMEIDA, poeta da Revolução, proclamou: “Bandeira que é o
nosso espelho / Bandeira que é a nossa pista! / Que traz no topo vermelho / o
coração do Paulista!”
A disciplina, no dizer do GENERAL CADORNA,ӎ a pedra angular de toda
formação militar” e “deve pela colocação em segundo plano da tropa a
preocupação individual, criar a cooperação de todos, colimando um fim único: a
vitória”. Essa disciplina foi amplamente notada na Revolução Constitucionalista
de 1932.
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