69 a. do suicídio de GETÚLIO VARGAS. Desde a
noite anterior, de 23 de agosto de 1954, era grande a movimentação no PALÁCIO
DO CATETE, que permaneceu todo iluminado com suas janelas abertas; mais de 100
automóveis entraram e saíram da sede do governo em poucas horas. O GENERAL
ZENÓBIO DA COSTA, em companhia do MARECHAL MASCARENHAS DE MORAES e do GENERAL
ODYLIO DENYZ, chegou à sede do governo, nos primeiros minutos daquela
terça-feira. O ministro da GUERRA, primeiramente, conferenciou com o chefe da
CASA MILITAR, GENERAL CAIADO DE CASTRO e, a seguir, os três oficiais do
Exército foram recebidos pelo presidente GETÚLIO VARGAS, que estava acompanhado
do ministro da Fazenda, OSVALDO ARANHA, convocado um pouco antes e chegado em
companhia de dois filhos. ZENÓBIO deu ciência da gravidade da situação, “que já
não podia ser debelada por parte das Forças Armadas do Exército, contra as
quais já se encontravam os chefes militares de mar e ar e certo número dos de
terra”. GETÚLIO disse que no decorrer do dia convocaria o seu ministério para
tomar uma deliberação. Nesse momento, o chefe do Estado-Maior das Forças
Armadas (EMFA), MARECHAL MASCARENHAS DE MORAES, propôs ao presidente que a
reunião fosse imediatamente realizada, apesar do adiantado da hora. Aceita a
sugestão, foi providenciada a convocação dos ministros, que, em uma hora,
começaram a chegar ao palácio.
Em
NITERÓI, o governador do Estado do RIO, ERNANI DO AMARAL PEIXOTO, genro do
presidente, recebeu um telefonema de BENJAMIM VARGAS dizendo: “A coisa está se
agravando aqui”. Ao chegar sua esposa, ALZIRA, disse-lhe “Vamos voltar
imediatamente para o RIO”. Ela ainda protestou : “Mas estou acabando de chegar
de lá e não há nada”. AMARAL PEIXOTO, precavido, tinha mandado segurar a barca
e, a uma hora da manhã, chegaram ao CATETE. O governador fluminense subiu ao
gabinete do presidente que, naquele exato momento, assinava um papel. Pensou
que fosse algum documento lido na reunião, mas depois, soube-se que se tratava
da “CARTA TESTAMENTO”. Logo depois, o ajudante de ordens avisou que os
ministros já haviam chegado. GETÚLIO levantou-se com a maior calma e disse:
“Vamos descer”.
Às
duas horas da madrugada, com a presença de todos os titulares – exceto o
ministro VICENTE RÁO, das Relações Exteriores, que se encontrava doente em SÃO
PAULO -, teve início, no salão de banquetes do segundo andar, a histórica
reunião ministerial presidida por GETÚLIO, que se sentou na cabeceira, tendo à
sua direita ALZIRA VARGAS DO AMARAL PEIXOTO, na quina da mesa, seguindo-se no
sentido anti-horário os ministros OSVALDO ARANHA, da FAZENDA; GUILLOBEL, da
MARINHA; EPAMINONDAS, da AERONÁUTICA; APOLÔNIO SALES, da AGRICULTURA; o chefe
do Estado-Maior das FORÇAS ARMADAS, MARECHAL MASCARENHAS DE MORAES, por
determinação especial do presidente; HUGO DE FARIA, interino do TRABALHO; JOSÉ
AMÉRICO DE ALMEIDA, da VIAÇÃO E OBRAS; MÁRIO PINOTTI, da SAÚDE; EDGAR SANTOS,
da EDUCAÇÃO E CULTURA; ZENÓBIO DA COSTA, da GUERRA; e TANCREDO NEVES, da
JUSTIÇA. Em pé, à esquerda do presidente, o governador ERNANI DO AMARAL PEIXOTO,
e à sua direita, um pouco mais afastados, ficaram MANECO VARGAS, JANGO GOULART,
BENJAMIN VARGAS, os deputados DANTON COELHO, EUCLYDES ARANHA e AUGUSTO DO
AMARAL PEIXOTO, o vice líder do governo, GENERAL CAIADO DE CASTRO, chefe do
gabinete Militar (que chegou depois, porque estava tomando medidas de
segurança) e, ao fundo, bem de frente para o presidente, estavam LOURIVAL
FONTES, chefe do gabinete civil. Outros auxiliares e amigos também entraram
durante a realização da reunião.
GETÚLIO
VARGAS abriu a sessão e expôs em largos traços a situação, concedendo depois a
palavra aos ministros militares, que deram sua opinião. Falaram em seguida os
ministros civis, tecendo muitos comentários, muitas declarações de
solidariedade e de preocupação pela segurança pessoal do presidente e de sua
família, porém, sem que se tenha emitido uma opinião conclusiva, à exceção do
ministro JOSÉ AMÉRICO, que aconselhou a fórmula honrosa de uma licença, o que
seria aceita, e de OSVALDO ARANHA, que, tal como os três militares, lealmente
se pronunciou pela renúncia, reiterando, entretanto, o seu irrestrito apoio,
caso o presidente resolvesse resistir.
Por
fim, o presidente concedeu a palavra ao MARECHAL MASCARENHAS DE MORAES, que
informou ter se reunido, na tarde anterior, com os três chefes de Estado-Maior,
e que assim podia fazer o seguinte quadro fiel da situação das três Forças
Armadas: a AERONÁUTICA estava reunida, sob a orientação do BRIGADEIRO EDUARDO
GOMES, e sugeria a renúncia presidencial. A MARINHA também estava reunida com o
ministro ligado aos seus almirantes, que desejavam a renúncia presidencial. No
EXÉRCITO, embora sob a ação forte do GENERAL ZENÓBIO, os oficiais de postos
menos elevados estavam agitados. Não se poderia contar com boa parte deles.
O
ministro da GUERRA protestou contra a fidelidade das informações do seu chefe
de Estado-Maior, GENERAL FIÚZA DE CASTRO, ao que o marechal retorquiu que eram
verdadeiras e ainda afirmou que a resistência levaria à guerra civil.
ALZIRA
VARGAS não aguentou e afirmou que tinha feito vários contatos com oficiais do
Exército leais e que todos afirmaram que poderiam contar com o apoio necessário
para a defesa do governo do presidente GETÚLIO VARGAS e não satisfeita indagou
aos ministros da AERONÁUTICA e da MARINHA, se esse apoio também não poderia vir
de suas armas.
O
ministro da MARINHA, RENATO GUILLOBEL, virou-se e disse: “Presidente, o seu
destino é ser traído pelos chefes militares”. O presidente pediu a opinião do
GENERAL CAIADO, que opinou pela resistência armada, quando o GENERAL ZENÓBIO
respondeu-lhe: “Neste caso, com a devida permissão do presidente, eu lhe darei
o comando da infantaria, que vai resistir ...”
O
GENERAL CAIADO, herói da Segunda Guerra Mundial, quando comandou justamente o
1º Regimento de Infantaria da FEB, respondeu aceitando o alvitre.
O
deputado DANTON COELHO interferiu, intempestivamente, adjetivando a senhora
genitora do ministro do ministro ZENÓBIO e ainda, em alto e bom som, declarou:
“Todo esse movimento não é contra o presidente e sim contra o senhor, general,
pois o Exército não ficou satisfeito com sua nomeação para o ministro da
GUERRA”.
O
titular da GUERRA protestou, de modo veemente, ante tal assertiva. DANTON,
respondendo, o chamou de traidor. Ainda em pleno debate, o GENERAL ZENÓBIO foi
várias vezes interpelado, não só pelo presidente, como também por ALZIRA, sobre
as possibilidades de resistência, respondendo sempre que “estava pronto para
resistir, embora sem certeza de êxito, pois contava apenas com parte do
Exército”.
Nesse
momento, o chefe de polícia CORONEL PAULO TORRES, que se encontrava na varanda
ao lado do salão, ouvindo os acalorados debates, chamou o governador AMARAL
PEIXOTO e disse: “Se o presidente der a ordem, eu prendo esses generais, porque
eles não têm comando. A informação que eu tenho é de que o pessoal da VILA está
muito firme ao lado do presidente”.
Admitida
a falta de apoio militar ao presidente, passou-se a cogitar da renúncia ou da
resistência armada e, finalmente, de uma terceira hipótese, o licenciamento do
presidente da República.
Diante
das vacilações de seus ministros e dos incidentes que estavam tumultuando
aquele conselho, o presidente GETÚLIO VARGAS, desassombradamente, tomou a
palavra e encerrou definitivamente os debates nos seguintes termos: “Não me
interessam a minha segurança e a de minha família, e sim a situação do país. Já
que o ministério não chegou a uma conclusão, eu vou decidir. Determino que os
ministros militares mantenham a ordem pública. Se a ordem for mantida entrarei
com um pedido de licença. Em caso contrário os revoltosos encontrarão aqui o
meu cadáver”.
Em
seguida retirou-se sob grande salva de palmas, abraçando sua filha ALZIRA
VARGAS DO AMARAL PEIXOTO. Ao sair, determinou ao governador fluminense: “O
senhor redija uma nota sobre isso”, a qual foi feita juntamente com TANCREDO e
OSVALDO ARANHA. Enquanto isso os auxiliares de governo esvaziavam as gavetas e
embalavam todos os documentos para serem transferidos para outro local.
Eram
4 horas e 20 minutos, estava finda a reunião e aparentemente superada a
gravíssima crise nacional, sem derramamento de sangue, graças à decisão do
presidente VARGAS, que preferiu deixar o posto. O presidente chamou JOÃO
GOULART e entregou um envelope fechado, sem nada escrito, e recomendou que
fosse para o RIO GRANDE DO SUL, para que ficasse afastado do torvelinho da
capital do país e ainda lhe disse que só lesse a carta quando chegasse ao sul.
O
MARECHAL MASCARENHAS observou que o ministro ZENÓBIO e o GENERAL DENYS estavam
visivelmente preocupados, provavelmente sobre a reação dos seus comandados
quanto à aceitação do ato presidencial de simples licenciamento e não de
renúncia.
A
chamado do ministro OSVALDO ARANHA, os três militares retornaram e permaneceram
até às 5:10 horas, quando foi entregue uma nota oficial, expressando a decisão
do presidente: “O presidente da República reuniu hoje o ministério para exame
da situação político-militar criada no país. Ouvidos os ministros, cada um de
per si, foram debatidos longamente os diversos aspectos da crise, e as suas
graves consequências. Deliberou o presidente GETÚLIO VARGAS, com integral
solidariedade dos seus ministros, entrar em licença, passando o governo ao seu
substituto legal, desde que seja mantida a ordem, respeitados os poderes
constitucionais e honrados os compromissos solenemente assumidos perante a
nação pelos oficiais-generais de nossas Forças Armadas. Em caso contrário,
persistirá inabalável no seu propósito de defender as suas prerrogativas
constitucionais com sacrifício, se necessário de sua própria vida”. A imprensa,
acreditada no palácio, recebeu a nota do chefe do gabinete civil, LOURIVAL
FONTES, que foi lida pelo jornalista HÉRBERT MOSES, presidente da Associação
Brasileira de Imprensa, que lá se encontrava. Enquanto realizava a reunião
ministerial, CAFÉ FILHO declarou aos jornalistas, em sua residência que
ignorava toda e qualquer informação a respeito da renúncia do presidente.
Nas
imediações do CATETE, grande era a movimentação de populares, a maioria
contrária a GETÚLIO VARGAS, e de carros que chegavam e entravam pelos portões
do palácio, apesar das ruas próximas estarem interditadas. Ainda no meio da
reunião, a rádio TUPI conseguiu romper a censura existente, sendo a primeira a
divulgar a falsa notícia de que o presidente VARGAS havia renunciado. Taxistas comemoraram
a divulgação da informação. Nesse momento, CAFÉ FILHO, de pijama, recebeu os
primeiros abraços em sua residência de precipitados amigos e dos puxa-sacos de
sempre.
O
BRIGADEIRO NERO MOURA, ex-ministro da AERONÁUTICA, tentou às 4 horas chegar ao
palácio, mas foi barrado por tropas militares ainda na rua do CATETE. Melhor
sorte teve o prefeito do DISTRITO FEDERAL, CORONEL DULCÍDIO CARDOSO, que
conseguiu entrar na sede do governo logo depois.
O
BRIGADEIRO EDUARDO GOMES estava no Quartel General aguardando os
acontecimentos. A RÁDIO GLOBO começou também a transmitir falsas notícias de
renúncia, intercaladas com marchas militares. A divulgação da renúncia pelas
emissoras de rádio foi recebida por foguetes em vários pontos da cidade.
ALZIRA,
juntamente com seu marido ERNANI DO AMARAL PEIXOTO e o ministro OSVALDO ARANHA,
foi até o quarto do presidente. Ela entrou e disse que os dois estavam ali para
mostrar a nota, a resposta foi seca: “O que eles resolverem, está resolvido”.
Estava totalmente desinteressado. ALZIRA falou ainda a seu pai que “faria uma
traquinagem”, pois havia falado com oficiais leais na VILA MILITAR e eles
haviam dito que “ficasse descansada, porque a VILA estava firme”; no que seu
pai respondeu: “Não adianta, o ZENÓBIO já está convidado pelo CAFÉ para
continuar no ministério”. Ela surpresa, indagou o porquê de ele não haver dito
antes. GETÚLIO com desdém respondeu: “o que iria adiantar?”
O
ministro da GUERRA, quando retornou ao PALÁCIO DUQUE DE CAXIAS, convocou uma
reunião com todos os generais para as 6 horas e 30 minutos, em seu gabinete.
LOURIVAL FONTES anunciou à imprensa: “CAFÉ tomará posse logo mais à tarde”.
Com
meia hora de atraso, teve início a reunião com os generais, e ZENÓBIO explicou
a todos a decisão tomada. Ao ser indagado: “Mas depois dessa licença, o
presidente volta?” – acredita-se que a pergunta tenha sido feita pelo GENERAL
FIÚZA DE CASTRO; o ministro da GUERRA respondeu: “Não, é claro que não!”.
Presente
como testemunha do fato, o general MORAES ÂNCORA, ex-chefe de polícia e muito
amigo do presidente, foi ao CATETE e contou ao GENERAL CAIADO DE CASTRO, na
presença de BEJO VARGAS, que havia subido ao quarto do seu irmão GETÚLIO, e
participado o grave ocorrido no ministério da GUERRA, quando o presidente teria
perguntado: “Então estou deposto?”; e BENJAMIN ainda acrescentou que “tinha
sido intimado a depor no GALEÃO”. O presidente, contrariado, disse: “Não, você
não vai. Eles que venham ouvir você aqui. Eu ainda sou o presidente!”
GETÚLIO
pediu para seu irmão descer o obter mais informações. Ele ficou sozinho até por
volta das 7 horas, quando foi procurado pelo barbeiro, que veio perguntar se
queria fazer a barba. Disse que não e dispensou-o dizendo que queria descansar
um pouco mais. Pouco depois, deixou o quarto e foi até o gabinete de trabalho
que ficava ao lado. Ainda de pijama, fora buscar o revólver que estava guardado
no cofre do gabinete.
Às
8 horas e 35 minutos, exatamente, o presidente da República GETÚLIO DORNELLES
VARGAS, de 72 anos, que havia governado o BRASIL por quase duas décadas,
colocou fim à sua vida com um disparo em seu coração. Dia 24 de agosto era data
de aniversário de seu filho caçula, GETULINHO, que havia falecido em SÃO PAULO,
em 1943, com apenas 23 anos, vítima de poliomielite.
O
tiro foi ouvido por aqueles que estavam por perto. A primeira pessoa a entrar
no quarto do presidente foi sua esposa, dona DARCY (pronuncia-se DÁRCI), que
dormia no quarto ao lado e entrou por uma porta interna. Ao ver o marido, que
ainda vestia um pijama, com as pernas para fora da cama e com um revólver
“COLT”, calibre 32, carga dupla, com o cabo de madrepérola, na sua mão direita,
mortalmente ferido, desesperada gritou: “GETÚLIO, POR QUE FIZESTE ISTO?”. Dona
DARCY SARMANHO VARGAS viveu nesse dia outro drama: sua irmã, ADA MOTTA, que
residia no RIO GRANDE DO SUL, ao ouvir a notícia da morte do cunhado presidente
pelo rádio, sofreu um infarto fatal.
A
seguir chegou o ajudante de ordens, MAJOR HERNANI FITTIPALDI, que estava na
porta do elevador do 3º andar, ala residencial do Palácio. O GENERAL CAIADO DE
CASTRO ao saber da triste ocorrência teve um desfalecimento.
Sua
filha ALZIRA falava por telefone com oficiais de confiança da VILA MILITAR, que
apoiavam o presidente, quando alguém a segurou pelos ombros e gritou: “ALZIRA,
seu pai!”. Ela saiu correndo em direção ao aposento presidencial, como todos
que estavam no PALÁCIO DO CATETE naquele exato momento. Quando chegou, ele
estava agonizando, e ela, chorando, jogou-se sobre ele. Com ajuda do ministro
da Justiça, TANCREDO NEVES, conseguiram colocar o corpo sobre a cama, no lado
esquerdo do leito. Procuraram estancar o sangue, mas não conseguiram. Ele,
ainda com vida, lançou um olhar circunvagante pelas pessoas que estavam no
quarto. Quando se deteve com os olhos em sua filha ALZIRA, sorrindo levemente e
dando a impressão de experimentar um frisson de emoção, ele morreu.
O
médico FLÁVIO MIGUEZ DE MELO, colega de turma de LUTERO, que o assistia, estava
sentado ao lado dele com um aparelho de pressão, balançando a cabeça, quis
dizer que era inútil. Apesar disso, uma ambulância do SAMDU foi chamada com
urgência ao Palácio, mas o médico RODOLFO SAMUEL MOREIRA, que foi atendê-lo, já
o encontrou morto.
O
governador AMARAL PEIXOTO conseguiu tirar sua esposa do lado do pai, que, ainda
muito abalada, foi colocada em uma poltrona. Nesse momento, observou em cima do
criado-mudo um envelope em branco, ao abri-lo constatou que era um documento de
despedida. Nessa hora, chegou ao quarto OSVALDO ARANHA, que fora avisado da morte
do presidente por BENJAMIM VARGAS. AMARAL PEIXOTO entregou a OSVALDO a carta,
uma ligação foi feita para a rádio NACIONAL. O ministro da Fazenda tentou
lê-la, mas não conseguiu, pois começou a chorar copiosamente. Seu filho,
EUCLIDES, emocionado, terminou por ele.
Desde
a divulgação da notícia da morte do presidente, centenas de milhares de pessoas
acorreram para o Palácio do CATETE. O grande caixão negro, não podendo ser
carregado em virtude do grande número de pessoas, desceu pelas mãos dos
presentes que se acotovelavam nos degraus, passando sobre a cabeça de todos até
chegar ao salão, onde foi colocado na eça. Quando descia o esquife, alguém
tentou se agarrar a um grande lustre que iluminava a escadaria. Não aguentando
o peso do pretenso Tarsan tupiniquim, veio a cair sobre várias pessoas,
ferindo-as.
Em
todo o BRASL, o povo, em estado de choque, saiu para prantear a memória de
GETÚLIO VARGAS. O comércio, por meio da Federação do Comércio, fechou suas
portas em sinal de luto, bem como as escolas, repartições públicas, clubes,
fábricas. A bandeira nacional foi hasteada no país inteiro a meio pau, em sinal
de luto.
Pelo
Decreto n º 36.114, de 24 de agosto de 1954, JOÃO CAFÉ FILHO decretou luto
oficial por oito dias:
O
Presidente da República, usando da atribuição que lhe confere o art. 87, item
I, da Constituição e, tendo em vista o disposto no art. 53 do Decreto n º
24.910, de 4 de maio de 1948, decreta:
Art
1º É decretado luto oficial por oito dias, em sinal de pesar pelo falecimento
do Presidente da República, Doutor GETÚLIO DORNELLES VARGAS.
Art
2 º O presente decreto entra em vigor na data de sua publicação.
RIO
DE JANEIRO, 24 DE AGOSTO DE 1954, 133 º DA INDEPENDÊNCIA E 66 º DA
REPÚBLICA.
CARTA–TESTAMENTO
DE GETÚLIO VARGAS.
“Mais
uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se
desencadeiam sobre mim. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de
domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me
chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o
regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do
povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos
nacionais revoltados contra o regime da garantia do trabalho. A lei de lucros
extraordinários foi detida no Congresso. Quis criar a liberdade nacional na
potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a
funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero.
Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja
independente. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de
rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro,
eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre
convosco. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era
escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui
escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em
sua alma e meu sangue será o preço de seu resgate. Lutei contra a espoliação do
Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O
ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida.
Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo
no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”
GETÚLIO
VARGAS foi chamado de PAI DOS POBRES. O CHEFE. O HOMEM. Sua carta–testamento,
na qual dá suas razões para o gesto extremo, é um dos mais conhecidos
documentos históricos.
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