MINHA
TURMA “JOSÉ BONIFÁCIO” ESTÁ COMPLETANDO O SEU JUBILEU DE OURO. O TEXTO DO
CORONEL PM ODAIR VEM ILUSTRAR BEM ALGUNS MOMENTOS QUE PASSAMOS NO “NINHO DAS
ÁGUIAS”. MEUS AGRADECIMENTOS A ELE PELAS LEMBRANÇAS TRAZIDAS COM O SEU ARTIGO.
REFLEXÕES
DE UM DIA DIFERENTE
Poxa
vida, justo hoje? Um toró dos diabos... Vontade de ficar um pouco mais,
quentinho, com soninho gostoso embalado pelos pingos da chuva na vidraça, que
fogem do trovão, cujo barulho mais parece o de um tambor cadenciando a marcha
acelerada.
Meu
Deus! Que horas são? Quase perco a hora. Devo estar ficando velho. É isso... Só
pode ser. Dormindo demais?
Pensando
nisso, ele se aprontou, tomou o café ao lado da esposa, a eterna companheira de
jornada, beijou os filhos e logo saiu para o trabalho.
Durante
o percurso atravancado do trânsito maluco, ainda mais com esse tempo,
anda pára, anda, pára, o pensamento voa com o vento forte da avenida e
para junto dos velhos pais morando ainda na minha cidade! Ali estão os amigos
distantes, correndo e pisando poças de água, pois naquele tempo, e não
faz muito, não havia asfalto, luz elétrica, a distância para a
escola era longa e feita a pé, quem disse haver ônibus escolar?
Anos
difíceis que serviram para fortalecer, envernizar o caráter do menino, que acalentava
um sonho: ser um militar da Força Pública... Assim pensou, assim conseguiu.
Vestibular, anos de caserna, que começaram na Augusta Academia e o tornaram
guerreiro, corajoso e indômito. Medo? Não há essa palavra em seu dicionário,
nem injustiça, falsidade, ou aquelas outras que mancham. Para você estão
grafadas, honra, disciplina, justiça, lealdade... E por aí a fora.
O
carro pára, você desce, sobe pelo elevador, na rotina diária. No gabinete do
Comando é recebido com aplausos pelos seus subordinados, esposa, filhos, amigos
e parentes, afinal de contas, hoje fica mais sábio, é o seu aniversário!
Ao
lado das fotos de ex-comandantes, agora você pode se dizer realizado. Passou
incólume pelas poças de água, sobre a lama e não manchou a farda.
Aqui,
no cantinho da sala, apreciando bem, vejo lágrimas brilharem em seus
olhos, você vacila de emoção e se apoia nos braços da companheira de todas as
horas, de todos os momentos, felizes na maioria, com certeza!
Eu,
aqui, neste lado da sala, choro também e quisera poder mandar um abraço, mas
você está cercado de pessoas melhores, dos amigos, do sucesso, quem me
dera. Minhas lágrimas frias aparecem ao lembrar-me daquele dia magnífico,
quando o juramento ecoou pelo pátio festivo, vozes de jovens emocionados dizendo
a uma só voz as palavras: “pela Pátria,
cuja honra e integridade defenderei
com o sacrifico da própria vida”...
O
tempo também passou para mim e aqui estou. Súbito, vejo você caminhando em
minha direção, passo cadenciado, forte, o uniforme reluzente, as mãos
enluvadas. É com emoção e carinho que você me segura com firmeza. Sinto o aço
revigorado correr por dentro de minhas veias, fico comovida ao ser
desembainhada e empunhada com autoridade diante das recrutas que se abatem para
mim, ofuscando-me a vista com o brilho do aço de suas juventudes.
E, no
pátio novamente, vou eu marcando a cadência e inspecionando os novos
aspirantes. Aniversário e formatura coroam a carreira do velho comandante e eu
junto dele, sempre...
... “Pela Pátria, cuja honra e integridade
defenderei com o sacrifício da própria vida”.
Chega
o dia de comemorarmos nossa declaração de aspirantes, mais de trinta anos são
passados e a expectativa de rever os antigos companheiros é euforia e
adrenalina pura (adrenalina de velho não é encontro na Cruz Azul, ou no C.
Med.). Dos cento e tantos que cruzaram a faixa de chegada, muitos ficaram pelo
caminho.
Manhã
esplendorosa, azul forte e brilhante, céu limpo e o sol reinando soberano é o
dono do espetáculo! Da mesma forma, no dia da formatura o tempo estava
maravilhoso, alegre, emoção em todos os rostos, expectativas, despedidas aos
nossos sucessores, passagem do estandarte, do Grêmio e de outras funções
acadêmicas; após cinco anos, além dos livros e materiais, deixávamos para trás,
também, parte de nossa juventude.
Recordo
que o primeiro dia de atividades foi uma festa, pontilhada de sustos,
apreensões, atrapalhadas, que somente o bicho consegue fazer. Vestíamos terno e gravata,
trazíamos malas contendo a roupa da ordem, passada e dobrada, estávamos prontos
para a vida acadêmica, que se iniciava com o berro do tenente:
-
Bicho filho do cão! Não se mexe! Todos tremem e
suam.
Logo a seguir fomos agraciados com as boas
vindas dos veteranos:
capacetômetro, relógio-cuco, maneabilidade de alojamento, danças, o afeto ao neófito é renovado periodicamente durante um ano.
Vieram
os serviços normais e com eles o famigerado serviço de plantão, a criação
máxima do demônio. O aluno plantão é, antes de tudo, um coitado. Responsável
pela segurança de quatro alojamentos, não pode estar armado; cabe a ele zelar
pela paz, segurança, sossego e tranquilidade dos veteranos, encarregado de lhes
prolongar o sono e evitar qualquer transtorno aos colegas, render na hora certa
e ao toque da corneta avisar suavemente:
-
ALLLLVORAAAAAADAAAAAA!
Acende
as luzes, bate na porta e corre para evitar as botas voadoras, é o último a
tomar café, elabora relatórios e ao final do serviço é agraciado com algumas
anotações.
Aprendemos
a conviver com os boatos e contrainformações:
-
Revista de japonaaaaaaaaa! Na sala de aula!
-
Sem japooonaaaaa! No pátio!
O
corre-corre movimenta o sangue quente da juventude encarcerada. Começam as
aulas e desfilam os mestres empertigados em uniformes reluzentes, ou, ternos e
gravatas de última moda.
As
forças finais que guardáramos durante a semana, na ânsia de estar com a
namorada, sentir-lhe os carinhos e perfumes, fazer planos para o casamento próximo, daqui a cinco anos caem por
terra assim que a dolorosa mensagem quebra o encanto e o sonho:
-
Atenção a Companhia, leitura do Boletim... Relação
de LC licenciamento cassado total!...
Pronto, o amor voa para o travesseiro do alojamento, aos fundos do
Rancho de onde se avista a cidade livre, com luzes piscando e, cada uma delas,
representa o olhar da amada chorando a nossa ausência!
O espetáculo continua, diz o ditado popular e não podemos esquecer-nos
das aulas de cavalaria, que todos adoram... Ver extintas.
- Atenção! Diz o tenente,
gigante sobre o quadrúpede que nos olha com desdém, o cavalo é o que está em baixo e pra desmontar, somente mediante ordem,
ouviram bem?
Sempre
haverá alguém desmontando livremente.
Lavar o animal, ficar com a inhaca o resto do dia, é divertido, para os outros.
Chegam os desfiles e com eles o treinamento incansável de sol a sol; passar com
garbo pela avenida, retornar ao pátio e ouvir o Comandante criticar, até que o
Oficial de dia o chama para atender ao telefone. Ele vai a passo de marcha,
célere e depois de uma breve pausa retorna na mesma cadência, perfila a espada,
nos coloca em posição de Sentido
e com um sorriso discreto, anuncia:
-Vocês foram a melhor tropa do
desfile. O governador ficou entusiasmado e mandou dispensá-los do pernoite de
hoje.
Ouvimos
com nossos sentimentos de poesia e ingenuidade.
Vim
descobrir que o governador não sabe quem é quem, ao final de minha carreira,
mas aquele nosso Coronel era dotado de coração de ouro, pulso de ferro,
generoso, sensível. Não querendo demonstrar o orgulho que nutria por nós, nem
deixar ver rolar uma lágrima de emoção, usava desse expediente tão simples,
porém, grandioso, digno dos grandes generais. Quanta saudade!
Revivêramos.
O êxtase se quebra com o maître nos chamando para servir o cardápio escolhido.
Sopa de legumes sem sal. Arroz sem sal, sem temperos, carne moída( por causa
das dentaduras), macarrão gravatinha com molho de tomate sem temperos. Não
havia sobremesas. Bebidas, água mineral sem gás, para rebater os comprimidos.
Esperamos algum tempo e poucos comparecem. Finda a confraternização, concluímos
que éramos felizes naqueles tempos difíceis, que não voltam mais.
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