segunda-feira, 31 de agosto de 2015

DIA DO SOLDADO - CORONEL CLÁUDIO MOREIRA BENTO, HISTORIADOR MILITAR E JORNALISTA PRESIDENTE DA FAHIMTB e AHIMTB - RESENDE - ACADEMIA MARECHAL MÁRIO TRAVASSOS

 








MEMÓRIA NO DIA DO SOLDADO DE 2015 no 212º ANIVERSÁRIO DO DUQUE DE CAXIAS PATRONO DO EXÉRCITO E O INSPIRADOR DE SUA DOUTRINA MILITAR

Cel Cláudio Moreira Bento - Historiador Militar e Jornalista,
 Presidente da FAHIMTB e AHIMTB |Resende Marechal Mário Travassos

Introdução

           No trancurso, em 25 de Agosto, do 212º aniversário de nascimento do Duque de Caxias e do 91º aniversário de consagração de seu aniversário como o Dia do Soldado, pelo Ministro da Guerra Marechal Fernando Setembrino de Carvalho - O Pacificador do Século XX - A FAHIMTB e a AHIMTB/Resende Marechal Mário Travassos prestam, com este artigo, uma homenagem a Caxias, o Pacificador do Século XIX, Patrono do Exército, da FAHIMTB e de suas academias federadas.
      
           O Coronel Amerino Raposo Filho, veterano da FEB e patrono em vida de cadeira especial da FAHIMTB, em Caxias e os proble­mas militares brasi­leiros (Rio de Janeiro: SGeEx, 1969, v. 1 - série subsídios doutriná­rios), intitulou Caxias de O inspirador de nossa doutri­na militar” (capítulo VI).
Nele, o pensador militar Coronel Amerino destacou e demonstrou a notável vi­são estratégica de Caxias e a sua capacidade de adapta­ção, ao realizar, durante a sua vida, operações milita­res completamente diversas e em Teatros de Operações distintos.
  Inicialmente, fo­ram os raids audaciosos para conter as revoluções em São Paulo e Minas Ge­rais; depois no Rio Grande do Sul; e, finalmen­te, no Paraguai, as manobras de flanco de Humaitá e Piquiciri, esta última culmi­nando em cerco.
Vale lembrar que, na Guerra de 1851-52, empre­endimento militar que Caxias lide­rou, ele adotou uma estrutura operacional e logística que deu excelentes resultados.
 Como Ministro da Guerra (1856), ele a transplantou para o Exército, o que veio a constituir pro­funda Reforma Administra­tiva, caracterizada pela criação das figuras do Ajudan­te-General, do Comando das Armas da Corte e do Quartel-Mestre-General, este encarregado da Logística, e todos diretamente a ele subordinados.
Na segunda vez em que as­sumiu o Ministério da Guerra (1861), apoiado na imensa experiência opera­cional que colhera adotou, com adaptações às realida­des operacionais sul-ameri­canas vivenciadas em cinco campanhas vitoriosas que comandara, as Orde­nanças de Portugal para as armas, até que se dispuses­se’, como declarou, ”de uma doutrina específica genui­namente nossa”. Adaptação no contexto da humilhante Questão Christie,
Para o autor antes cita­do, a Manobra de Flanco do Piquiciri, na Guerra do Paraguai, seria ímpar na His­tória Militar Universal. Foi de concepção audaciosa, aliada à rapidez e à surpre­sa da sua execução que cul­minou com o cerco de to­do o Exército adversário na frente secundária de fixação. O adversário foi batido quando intentava a fuga, e não uma Retirada. Caxias teria sido, assim, o pioneiro em Manobra de Cerco.
Para o pensador militar Coronel Ameri­no, as atuações operacionais de Caxias estariam a suge­rir uma Doutrina Militar fundamentada na Seguran­ça, tática e estratégica em todas as direções. Sua não observância pelo adversá­rio, resultou para este em derrota, na Dezembrada.
 Para o hoje patrono em vida de cadeira especial  da FAHIMTB, Cel Amerino, Caxias não foi um teórico, mas essencialmente um prático em Arte e Ciência Militar.
Para o pensador militar e patrono de Cadeira da FAHIMTB Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco:
“Caxias possuía em alto grau o senso do praticável e a convicção de que a Arte Militar é toda execução”.
Desse modo, Caxias teria lançado as bases da nossa Dou­trina Militar Terrestre com a ponta da sua invicta espada e no campo de batalha, tal como o fizeram Frederico - o Gran­de, Napoleão, Suvorov e Sherman.
Amerino Raposo suge­riu, aos profissionais com responsabilidade na formu­lação da Doutrina Militar Terrestre Brasileira, que mer­gulhassem no estudo críti­co de nossas guerras inter­nas e externas, para delas emergir aquilo que orienta­ria o novo comportamen­to, no sentido do que de­veria animar a nossa Força Terrestre e, em consequência, ajudar a caracterizar, em caso de  guerra, de como ela deveria ser conduzida nos diversos Teatros de Opera­ções do País e da América do Sul.
Quando alguém pediu, ingenuamente, à Missão Militar Francesa, logo que aqui che­gou, que ensinasse táti­ca e estratégia brasileiras, os franceses informaram que ambas es­tavam embutidas na nossa Histó­ria Militar e de onde, com apoio num estudo histórico militar crítico, à luz dos Fundamentos da Arte e Ciência Militares, elas deviam ser retiradas. E foi deste contexto des estudos aconselhados, que deles saiu, como exemplo eloquente, o General Augusto Tasso Fragoso, com suas obras A Batalha do Passo do Rosá­rio e A Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, que o consagraram como o Pai da His­tória Militar nosso Exército.
A História Militar Crítica foi a  projeção da atuação como instrutor e comandante da ECEME e Chefe do EME do Marechal Castelo Branco, por sua influência, implantada na AMAN, a partir de 1959, pelo então Tenente-Coronel Francisco Ruas Santos  e que foi ministrada por cerca de 40 anos, até por volta de 1999, na AMAN, por oficiais instrutores com o Curso da ECEME e orientação recebida da Cadeira de História Militar da AMAN por  todos os atuais generais combatentes do nosso Exército.
 Ensino militar crítico apoiado de 1978 a 1998, por cerca de 20 anos, pelos livros textos azuis História da Doutrina Militar e História Militar do Brasil, patrocinados pelo Estado-Maior do Exécito. Ponto de inflexão do Ensino de História Militar na AMAN, decorrente da Modernização do Ensino e caracterizado pelo Capitão Elton Licério Rodrigues Machado na p. 24 de sua palestra na Escola Naval, sob o título “A História Militar e o Curso de História Militar na Formação de Oficiais Combatentes do Exército Brasileiro - 200 anos de História”, publicada nos Anais do VI Encontro Pedagógico do Ensino Militar Superior, realizado de 2 a 6 de setembro de 2012, ano do Bicentenário da AMAN.
O Coronel Amerino sugeriu doutrinas táticas terrestres com apoio nas atuações de Caxias. E ex­plicou:

Doutrina com in­tensa solicitação à surpre­sa, à audácia, à rapidez de movimentos; às manobras flexíveis, com estruturas leves e aptas a viver em grandes espaços, isoladas e, até à própria sorte. Doutri­na que responda às peculi­aridades de nossos teatros de operações, de nosso potencial humano e de nossas possibilidades econômico-industriais”.

O que sugeriu pode ser facilmente identificado na expulsão de feitorias europeias no Baixo Amazonas e afluentes, por Pedro Teixeira, liderando guerrilha fluvial, bem como na luta de trinta anos, de 1724-54, contra os holandeses na Bahia e Pernambuco e contra as invasões espanholas no Sul (1763-77).
 Nelas, desenvolveu-se uma doutrina militar terrestre brasileira genuina ‘A guerrilha fluvial’, vitoriosa no Baixo Amazonas, ‘A guerra  brasílica em Pernambuco e Bahia e, no Rio Grande do Sul, ‘A guerra à gaúcha’.
Com apoio na guerrilha “a estratégia do fraco contra o forte”, esse tipo de guerra teria sido apropriado por Caxias, na Revolução Farroupilha, ao entregar a condução das operações, no campo tático, a dois especialistas nessa maneira de guerrear, o General Bento Manuel Ribeiro e guerrilheiro imperial Ten Cel da Guarda Nacional Francisco Pedro de Abreu, o ‘Moringue’, que estabeleceu a base da Coluna Esquerda do Exército do Barão de Caxias em Canguçu atual, nas Serras do Sudeste então distrito da Capital Farroupilha Piratini, onde era mais forte a resistencia. Distrito de Canguçu considerado pelo guerrilheiro imperial Francisco Pedro “como o distrito de mais perigo e mais farrapo.”
 Vale lembrar que, na pacificação do Maranhão, Caxias usou a guerrilha para combater a guerrilha balaia, ação que mais tarde inspirou comandos paraguaios para a solução de problemas semelhantes.
Mais tarde, na luta pela independência do Acre, o gaúcho Plácido de Castro também desenvolveu uma doutrina militar genuína para enfrentar os bolivianos, apropriando-se em muito na Guerra à gaúcha que ele praticara na Guerra Civil de 1893/195 no Rio Grande do Sul, como major federalista.
 Doutrinas com essas características e inspiração, citadas pelo pensador militar Amerino Raposo e com os precedentes his­tóricos que apontamos, se­guramente podem e devem ser implementadas para a defesa preventiva da Ama­zônia Brasileira. Aumenta­ria, em muito, a capacida­de dissuasória das forças terrestres encarregadas de sua defesa, com apoio no e na experiência do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), contra tentativas várias que possam pôr em risco a Integridade, a Unida­de e a Soberania do Brasil na área, no insondável Ter­ceiro Milênio.
 Sobre a defesa da Ama­zônia leia-se o valioso arti­go do General Luiz Alberto Bringel ‘A Estraté­gia da Lassidão’, que respon­de às nossas reflexões e con­siderações aqui feitas e do qual tomamos conhecimen­to depois de havermos es­crito esta parte. Ensina-nos o General Bringel:

“Lassidão é a estratégia do fraco que, valendo-se de alguns fatores a seu favor, reage no campo militar, evitando um engajamento decisivo contra uma esma­gadora superioridade mili­tar, impondo-lhe o máximo desgaste e lhe  enfraquecendo assim, a vontade de com­bater, visando obter na opi­nião pública do adversário, forte pressão sobre o seu Congresso no sentido de suspender as ações armadas”.

        A Guerra Brasílica e a Guerra à Gaúcha tiveram ca­racterísticas de Lassidão que encontram suas raízes no pensamento militar portu­guês, com base no Pensamento Político de Portugal de ‘Dilatar a Fé Católica e o Império de Portugal’ pelo mundo. Embora um país pequeno territorialmen­te, conseguiu se impor e manter importantes territó­rios nos quatro cantos do mundo, inclusive o Brasil, por 322 anos.
        Eis o pensamen­to militar português, na feliz interpretação do General Paula Cidade:
 “Jul­gada a causa justa, buscar a proteção divina e atuar ofensivamente, mesmo em inferioridade de meios”.
Dessa forma, eles con­quistaram e mantiveram a Amazônia inviolável de 1640 a 1822.
        O Coronel J. B. Maga­lhães, também assinalado pensador militar e também um dos biógrafos do Ge­neral Osório, ao prefaciar o trabalho focalizado do Co­ronel Amerino, assim viu o valor, para o presente e futuro do Exército, do aproveitamento crítico da história das Forças Terres­tres Brasileiras, como força operacional, com experiên­cias guerreiras citadas expressiva­mente vitoriosas:

“Tudo o que existe deri­va do que existiu antes. E é isto que dá valor positi­vo aos registros da Histó­ria, permitindo fazer-se uma filosofia capaz de ori­entar com acerto as ativi­dades humanas. E, anali­sando como atuaram em bem do progresso as elites de ontem, é que as elites de hoje e do amanhã po­derão produzir eficazmen­te, consideradas as modifi­cações ambientais”.

Sobre Caxias, ele assim interpretou a projeção como chefe militar:

“Caxias foi chefe militar de escol. Atuou em época de acentuadas transforma­ções nos mecanismos da guerra. Soube utilizar os meios de que dispunha, dando-lhes uma orientação apropriada ao seu maior rendimento”.

     Caxias teve à sua dispo­sição, e empregou, os mei­os que a descoberta da má­quina a vapor, que gerou a Revolução Industrial, pro­duziram: navios de guerra a vapor; telégrafo; balões cativos, importados do Exército do Norte dos EUA e empregados nos reconhe­cimentos para flanquear Humaitá; linha férrea, cons­truída e operada por nossa Marinha, para apoiar unida­des navais que operaram no rio Paraguai entre duas fortalezas adversárias.
        Fortalezas inimigas equipadas com munição e armamentos abundantes, produzidos industrialmente e não mais artesanalmente.
        Caxias, como Ministro da Guerra, lançou as bases da Doutrina Militar Terrestre Brasileira no tocante à regulamentação da Disciplina e da Justiça Militar e dos Serviços Gerais.
        Desde então as novidades tem como ponto de partida os regulamentos específicos que baixou em 1856, 1862 e 1875.
   Caxias foi o pioneiro na análise critica de batalhas ao analisar militarmente a Batalha do Passo do Rosário, à luz dos Fundamentos da Arte e Ciência Militar, por solicitação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) do qual era sócio honorário.
           Instituição que, desde 1925, é detentora da invencível espada do Duque de Caxias da qual, em 1930, o Coronel José Pessoa, como comandante da Escola Militar do Realengo, mandou copiá-la em escala para servir de modelo do Espadim de Caxias, arma privativa dos cadetes do Exército. Espadim que, em 22 de agosto de 2015, novos cadetes o receberam, como o Símbolo da Honra Militar, numa cerimônia tradicional na AMAN que há 82 anos se repete anualmente.
          Como contribuição as ideias do três pensadores militares de nosso Exército e patronos de cadeiras de nossa guerreira FAHIMTB, o Marechal Castelo Branco e os coronéis J.B. Magalhães e Amerino Raposo a FAHIMTB com apoio em trabalhos de seus patronos de cadeiras e acadêmicos produziu e distribuiu amplamente seu livro Brasil - lutas contra invasões, ameaças e pressões externas...dos quais doou 1.000 exemplares ao Departamento de Ensino e Cultura do Exército, para uso em especial pelas escolas do Exército. E no momento desenvolve o livro Brasil - Lutas Internas 1500-1916, com apoio em trabalhos de seus patronos de cadeiras e acadêmicos, bem como reúne a bibliografia produzida por patronos e acadêmicas sobre as lutas internas no Brasil de 1916 – Atualidade, para que sejam analisadas por historiadores na oportunidade do centenário de cada uma dessa lutas quando seus agentes não mais existam.


Editor: Cel Claudio Moreira Bento, Historiador Militar e Jornalista Presidente da FAHIMTB e AHIMTB/ Resende – Academia Marechal Mário Travassos

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