quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A AVIAÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932 - 102 ANOS DA CRIAÇÃO DA ESCOLA DE AVIAÇÃO DA FORÇA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO (17 DE DEZEMBRO DE 1913.



 A AVIAÇÃO CONSTITUCIONALISTA

Antes de qualquer referência à Aviação Constitucionalista, é preciso consignar algumas palavras sobre a arma aérea na Força Pública do estado de São Paulo.

Em 1912, assume a presidência do estado bandeirante, pela terceira vez, o Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, ex-embaixador do Brasil na Inglaterra onde constatara o interesse que o emprego militar do avião já despertava na velha Albion. À época, pairava sobre São Paulo a ameaça da "política das salvações" que o governo presidido pelo marechal Hermes Rodrigues da Fonseca impusera a outras unidades federadas brasileiras.

Rodrigues Alves resolveu dotar a Força Pública estadual de aviões criando, através da Lei 1395 A, de 17 de dezembro de 1913, a Escola de Aviação daquela milícia. Eram responsáveis pelo novel estabelecimento os aviadores Edu Chaves, como diretor, e Cícero Marques, como instrutor, ambos brevetados na França.

A escola, instalada no campo do Guapira, ressentia-se de infra-estrutura para a manutenção dos aviões eis eram escassos profissionais capazes para tal e o suprimento de peças era importado e caro. O estabelecimento deixou de funcionar mas a lei que a criou não foi revogada.

O entusiasmo pela aviação em São Paulo era contagiante e incentivado pelo retorno à capital do aviador norte-americano Paul Oston W. Hoover , ex-instrutor da aviação naval e da escola da Força Pública, o que deixara para servir sua pátria na Primeira Guerra Mundial. Tudo isso causou o renascimento da Escola de Aviação da Força Pública bafejada com a volta de Hoover à sua instrutoria. Formou vários oficiais-aviadores para a milícia paulista, os quais, na revolução de 1930, atendendo à solicitação do general Hastimphilo de Moura, foram encaminhados, junto com os meios aéreos existentes, à Segunda Divisão de Infantaria para formarem a Aviação Legalista sob o comando de major-aviador Lysias Augusto Rodrigues. Cremos que alguns de seus aviões lançaram bombas sobre os revolucionários à altura de Itararé. A tal convicção nos conduz, relato de João Neves da Fontoura em obra citada na bibliografia.
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Waco CSO
Vencedor o movimento de rebeldia, por sugestão do general Pedro Aurélio de Góes Monteiro, chefe do Estado-Maior dos amotinados, foi extinta a aviação da Força Pública bandeirante. Seus pilotos foram distribuídos por diversas unidades interioranas; o material, entregue ao Exército.
Posto isso, passemos à revolução de 1932.

Ao seu lampejo, no dia 09 de julho, o Regimento de Cavalaria da Força Pública tomou as instalações do campo de Marte onde havia, em um hangar, dois aviões Waco de 180 HP do Correio Aéreo Militar. No dia seguinte, no quartel do Quarto Regimento de Infantaria, foram encontrados dois aviões Potez, bombardeiros de 450 HP. Eles constituíram o núcleo da aviação revolucionária paulista

Foi, então, criado o Grupo Misto de Aviação da Força Pública de São Paulo pelo interventor Pedro de Toledo através do Decreto 5590, de 15 de julho de 1932 que o dotou de uma esquadrilha de caça, uma de bombardeio, uma de exploração e observação e uma de adestramento. O comando seria de major-aviador e os órgãos de apoio eram chefiados por capitães-aviadores.

O comando do Grupo foi entregue ao major-aviador Dr. Ismael Torres Guilhermino Christiano, oficial médico que, entusiasta da aviação, se tornou piloto. O subcomandante era o capitão João Negrão, do Corpo de Bombeiros. Comandava a esquadrilha de caça, o capitão Sebastião Machado.

Já no dia 10 de julho, civis paulistas apresentaram-se em Marte e foram comissionados como segundos-tenentes da Força Pública. Destaque-se o Dr. Mário Machado Bittencourt pelo seu desempenho e sacrifício que serão apreciados no momento oportuno. Junto com aviadores milicianos foram utilizados como pilotos e observadores aéreos. Lá foram ter, ainda, os capitães Antônio Reynaldo Gonçalves e Alberto Americano. Inúmeros outros oficiais e praças da Força Pública, foram postos à disposição do Grupo Misto de Aviação para constituírem órgãos de apoio.

Oficiais da arma de Aviação do Exército aderiram à revolução como os  majores-aviadores Ivo Borges e Lysias Augusto Rodrigues. O primeiro, conspirador de primeira hora ,junto com sua esposa, Sra. Celeste Borges, freqüentava a casa do coronel Euclides de Oliveira Figueiredo. na rua Delgado de Carvalho, Tijuca, Rio de janeiro. Conseguiram alguns escapar dessa cidade e dirigir-se para São Paulo em barcos pesqueiros tais como os primeiros-tenentes-aviadores José Ângelo Gomes Ribeiro e Orsini de Araújo Coriolano e vários outras pessoas que conspiravam na residência do coronel Figueiredo. Pela mesma via, chegaram a São Paulo os majores-aviadores Lysias Augusto Rodrigues e Ivo Borges.

Outros, como o tenente-aviador Artur da Mota Lima e o capitão-aviador Aderbal da Costa Oliveira, voaram para a terra bandeirante. O primeiro, em 14 de julho, pilotando um Waco, conseguiu fugir do campo dos Afonsos. Perseguido, logrou pousar em Taubaté. O segundo, dirigindo um Nieuport Delage, por ocasião de um vôo de treinamento da Escola de Aviação Militar, iludindo a grande vigilância que já ocorria, escapou dos Afonsos na em 21 de agosto. Levava, como passageiro, o soldado José César Falcão que nada tinha a ver com a revolta.

Desencadeada a revolta o pessoal do Destacamento de Aviação de São Paulo, baseado no campo de Marte, manteve-se fiel à legalidade. Apenas, o primeiro-tenente Nicanor Porto Virmond aderiu. Os revoltosos prenderam o capitão-aviador Álvaro D´Assunção D Ávila e os primeiros-tenentes aviadores Casimiro Montenegro Filho e João de Almeida. O segundo-tenente-aviador Geraldo Guia de Aquino logrou a fuga antes que seus colegas fossem aprisionados e seguiu para Minas Gerais, via Três Corações, apresentando-se, posteriormente, no campo dos Afonsos.

Formou-se, então a Aviação Constitucionalista que operou em todas as frentes onde ocorreu a luta mas sua concentração maior foi na frente sul. Estava baseada em Itapetininga e Marte.

Ela era constituída pelo Grupo Misto de Aviação da Força Pública que já foi apreciado acima e pelo Grupo de Aviação Constitucionalista cujo comandante era o major -aviador Lysias Augusto Rodrigues tendo como pilotos os capitães Adherbal da Costa Pereira, José Ângelo Gomes Ribeiro e Arthur da Mota Lima, reforçada com componentes do Grupo Misto.

O comando geral da Aviação Constitucionalista, os chamados "GAVIÕES DE PENACHO," foi entregue ao major-aviador Ivo Borges.
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Nieuport Delage.
Seus meios aéreos, a princípio,, consistiam em duas aeronaves Potez TOE (A116 e A212) e um Waco CSO, o C2, aqueles que estavam baseados no campo de Marte, quando eclodiu o motim, e não possuíam metralhadoras sincronizadas. A ela, foram doados dois outros aviões pelo Aero-Clube dos Bandeirantes Paulistas, um Moth e um Fleet os quais, entretanto, eram inservíveis para fins militares.
Seguiram-se um JN de propriedade do capitão Antônio Reynaldo Gonçalves e um Morane, obtido por empréstimo. Depois, reforçou-se com os aviões trazidos pelos oficiais que se evadiram do campo dos Afonsos, o Waco CSO e o Nieuport Delage.
 A base inicial foi o campo de Marte, em São Paulo, ao depois, transferida para Itapetininga.
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Fleet
A infra-estrutura aeroportuária era formada por vários campos de pouso o que permitiu a operação em todas as frentes de combate. Daqui resultou que os poucos aviões que possuía foram distribuídos por vários lugares o que evitou alvos estacionados. A Aviação Constitucionalista teve, também, uma base de campanha na Fazenda Chapadão, em Vira-Copos.
As aeronaves eram ali camufladas em uma barraca de lona armada em um capão de mato. Só operavam quando não havia sequer a mínima ameaça da presença da aviação legalista. Nesse campo, os sediciosos perderam o avião Potez A 212, acidentado em manobras de pouso
Cotejando-se a constituição das duas Forças Aéreas (se é que podemos chamá-las assim), vê-se que, iniludivelmente, a aviação do governo federal detinha a superioridade aérea. Leve-se em conta que os "Gaviões de Penacho", apenas uma vez, dispuseram de seis aviões disponíveis.

Ambas as forças aqui em estudo sentiram a sua inferioridade de meios. Pelo lado legalista, o general Góes Monteiro solicitou a Getúlio Vargas aquisição de cinqüenta (50) aviões Waco CSO, quando ele esteve em visita à frente do Túnel. Só dez (10) das aeronaves compradas chegaram a tempo. Os demais apareceram com o conflito praticamente terminado. Foram, então, empregados em missões do Correio Aéreo Militar.
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Curtiss Falcon
Os revoltosos, em agosto, compraram da Fábrica de Montagem da Curtiss Wright Corporation, situada no Chile, nove aviões Curtiss Falcon O TE. 
Estavam equipados com motor Curtiss D-12, de 135 HP, atingindo a velocidade máxima de 224km/h com um raio de ação de 1000 quilômetros e teto de 600 metros. Foram as mais aperfeiçoadas aeronaves presentes na revolução de 1932.

Transladados por pilotos americanos e chilenos, o local de entrega aos revolucionários paulistas era a cidade de Encarnación, no Paraguai. Um desses aviões acidentou-se na fronteira do Chile com a Argentina e outro foi apreendido pelos paraguaios em Concepción. Os demais foram conduzidos à cidade de Campanário, Mato Grosso, aonde foram entregues aos revoltosos. Em São Paulo, foram armados com metralhadoras e porta-bombas. Um deles foi inutilizado por tiros de metralhadora em uma experiência.

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