261 a. do TERREMOTO DE LISBOA. Na
manhã de 1º de novembro de 1755 a cidade estremeceu, abalada profundamente, e
começou a desabar. Eram 9 horas, dia de TODOS-OS-SANTOS. Nas suas casas ardiam
as velas dos oratórios, e as igrejas convidavam o povo a ouvir missas. Toda a
gente, numa onda, correu às praias. Mas, rolando em massas, estancou perante a
onda que vinha do rio, galgando a inundar as ruas, invadindo as casas. Por
sobre esse encontro ruidoso, uma nuvem de pó que toldava os ares e escurecia o
sol, pairava, formada já pelos detritos das construções e das mobílias, que o
abalo interno da terra, e os desabamentos enviavam, em estilhas, para o ar. O
cenário do fim de um mundo, nas palavras de OLIVEIRA MARTINS, historiador
português do século XIX, era a LISBOA de 1755, num momento em que PORTUGAL já
não era mais rei dos mares. O abalo sísmico, que completou 250 anos em 2005,
balançou com força a corda bamba em que a quarta maior cidade da EUROPA se
equilibrava. O ouro brasileiro não mais a escorava, e o feriado santo não lhe
trazia paz. Cinco dias depois. O único jornal em circulação, a GAZETA DE
LISBOA, noticiava: “O dia 1º do corrente ficará memorável a todos os séculos pelos
terremotos e incêndios que arruinaram uma grande parte desta cidade; mas tem
havido a felicidade de se acharem na ruína os cofres da fazenda real e da maior
parte dos particulares”. Aparentemente, a imprensa, assim como a elite, não se
descabelava com os efeitos do tremor: não publicava absolutamente nenhum
detalhe sobre os edifícios e as vidas destruídas. Mas, afinal, o que o
incidente significou? Até a tragédia de LISBOA, fazia sentido chamar um
terremoto de “mal natural”. Depois do cataclismo, isso mudou. Ali surgiu a
curiosidade que levou ao nascimento de uma nova ciência: a sismologia. O
terremoto de LISBOA foi o primeiro a ser estudado de fato. O MARQUÊS DE POMBAL,
primeiro-ministro, ordenou que um questionário sobre os danos fosse respondido
em todo o país. Havia até perguntas prosaicas, como se os animais haviam se
comportado de modo diferente nas vésperas do sismo. Esses dados são úteis ainda
hoje pra os especialistas em sismologia. A mentalidade popular também mudou com
o desafio: como uma cidade tão beata podia padecer de tamanha catástrofe? Como
podiam se enterrar sob os escombros de igrejas católicas milhares de fiéis? Em
pleno século das LUZES, o questionamento da bondade de DEUS estremecia a fé.
Era hora de recorrer à ciência. Assim, o cataclismo lisboeta despiu o manto
moral que revestia os desastres naturais. “Ele chocou a civilização ocidental
mais do que qualquer outro evento desde a queda de ROMA”, diz a filósofa
americana SUSAN NEIMAN. Ela compara o sismo em termos de importância ao HOLOCAUSTO
judeu na Segunda Guerra. As duas hecatombes levaram os intelectuais não só a
duvidar da providência divina como a separar definitivamente o mal natural do
moral.
O terremoto atingiu 9 graus na
escala RICHTER e durou entre 3 e 6 minutos – o suficiente para que rachaduras
de 5 metros rasgassem o centro da cidade. Minutos depois, LISBOA era engolida
por três tsunamis. Mas não foi só PORTUGAL que sentiu o abalo. No restante da
EUROPA, as ondas mais revoltas chegaram à FINLÂNDIA e um tsunami de 3 metros
lavou a costa sul da INGLATERRA. O norte da ÁFRICA e as ILHAS DE MARTINICA e
BARBADOS, foram varridas por tsunamis menos piedosos, com mais de vinte metros
de altura. Só do MARROCOS levaram dez mil corpos. Dos 275 mil lisboetas, cerca
de 70 mil morreram. Na época, chegou-se a cogitar que cem mil teriam
desaparecido. Cerca de 85% das construções, incluindo palácios e igrejas,
sucumbiram. Em meio aos destroços ficaram 70 mil volumes da Biblioteca Real e
centenas de quadros de pintores renascentistas famosos, como o flamengo RUBENS
e o italiano CORREGGIO. No dia da tragédia, dom JOSÉ I passeava com a família
por BELÉM. Salvo pela sorte, o rei deixou PORTUGAL nas mãos de seu ministro dos
interiores, POMBAL, e claustrofóbico, refugiou-se num complexo de tendas no
ALTO DA AJUDA.
POMBAL apoiou-se em explicações
naturalistas e não estava disposto a deixar a tragédia macular seu governo
recém-iniciado. Enterrou os cadáveres que se amontoavam para evitar a peste,
distribuiu alimentos e colocou a milícia nas ruas, além de assegurar a
circulação do jornal semanal – só as informações evitariam rumores e
especulações.
No embate entre a fé exacerbada e
o despotismo esclarecido, o segundo venceu. MALAGRIDA morreu num auto-de-fé. O
jesuíta italiano logo após o tremor aconselhou os portugueses a trocarem o
trabalho de reconstrução pelo retiro espiritual. Era a única forma de se
livrarem da “ira divina”. POMBAL reergueu LISBOA e a economia de PORTUGAL com
mão de aço e auxílio de novos impostos sobre as colônias.
De acordo com IRIS KANTOR,
professora de História Ibérica da Universidade de SÃO PAULO, “no BRASIL, o
terremoto é lido de maneira profética, à la MALAGRIDA”. Os historiadores sempre
relutaram, mas é fato que o desastre desencadeou mudanças, como a expulsão dos
jesuítas – desafetos do MARQUÊS DE POMBAL – além de aumentos nos tributos sobre
a circulação de mercadorias no BRASIL.
É inegável também que o modelo de
reconstrução lisboeta repercutiu na AMÉRICA portuguesa. “Isso fazia com que os
colonos percebessem, cada vez mais, que eles ocupavam a periferia do império,
um estatuto inferior”, diz IRIS KANTOR.
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