129 a. nasce o
escritor OSWALD DE ANDRADE em 11 de janeiro de 1890. Abandona o curso de
Direito em 1911. Entre 11 e 18 de fevereiro de 1922 lidera a SEMANA DE ARTE
MODERNA. Morre em SÃO PAULO em 22 de outubro de 1954. Obras principais:
MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE JOÃO MIRAMAR (1924), O REI DA VELA (1937) e UM HOMEM
SEM PROFISSÃO (1954).
Um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil, foi o autor dos dois mais importantes manifestos
modernistas, o Manifesto
da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto
Antropófago, bem como do primeiro livro de poemas do modernismo
brasileiro afastado de toda a eloquência romântica, Pau-Brasil.
Muito próximo, no princípio de sua carreira literária, de Mário de Andrade,
ambos os autores atuaram como "dínamos" na introdução e
experimentação do movimento, unidos por uma profunda amizade que durou muito
tempo. Porém, possuindo profundas distinções estéticas em seu trabalho, Oswald
de Andrade foi também mais provocador que o seu colega modernista, podendo hoje
ser classificado como um polemista. Nesse aspecto não só os seus escritos como
as suas aparições públicas serviram para moldar o ambiente modernista da década de 1920 e de 1930. Foi um dos interventores na Semana de
Arte Moderna de 1922. Esse evento teve uma função simbólica
importante na identidade cultural brasileira. Por um lado celebrava-se um
século da independência política do país colonizador Portugal, e por outro consequentemente,
havia uma necessidade de se definir o que era a cultura brasileira, o que era o
sentir brasileiro, quais os seus modos de expressão próprios. No fundo,
procurava-se aquilo que o filósofo alemão Herder,
no final do século XVIII, já havia definido como alma nacional (volksgeist).
Esta necessidade de definição do espírito de um povo era contrabalançada, e
nisso o modernismo brasileiro como um todo vai a par com as vanguardas
europeias do princípio do século, por uma abertura cosmopolita ao mundo.
Na sua busca por um caráter nacional (ou falta dele, que Mário de Andrade
mostra em Macunaíma),Oswald,
porém, foi muito além do pensamento romântico, diferentemente de outros
modernistas. Nos anos vinte, Oswald voltou-se contra as formas cultas e
convencionais da arte. Fossem elas o romance
de ideias, o teatro
de tese, o naturalismo, o realismo, o racionalismo e o parnasianismo (por exemplo Olavo Bilac). Interessaram-lhe, sobretudo,
as formas de expressão ditas ingênuas, primitivas, ou um certo abstracionismo
geométrico latente nestas, a recuperação de elementos locais,
aliados ao progresso da técnica. Foi com
surpresa e satisfação que Oswald de Andrade descobriu, na sua estada em Paris
na época do Futurismo e do Cubismo, que os elementos de culturas até
aí consideradas como menores, como a africana ou a polinésia, estavam a ser integrados na arte
mais avançada. Assim, a arte da Europa industrial era
renovada com uma revisitação a outras culturas e expressões de outros povos.
Oswald percebeu-se que o Brasil e toda a sua multiplicidade cultural, desde as
variadas culturas autóctones dos
índios até a cultura negra
representavam uma vantagem e que com elas se poderia construir uma identidade e
renovar as letras e as artes. A partir daí, volta sua poesia para um certo primitivismo e tenta fundir, pôr ao mesmo
nível, os elementos da cultura popular e erudita.
O Manifesto
da Poesia Pau-Brasil é do mesmo ano que o Manifesto
Surrealista de André Breton, o que reforça a tese de que o
Brasil estava a acompanhar plenamente o movimento das vanguardas mundiais.
Tinha deixado definitivamente de ser uma forma de expressão pós-portuguesa para
se afirmar plena e autonomamente. Neste manifesto Oswald defende uma poesia que
seja ingênua, mas ingênua no sentido de não contaminada por formas
preestabelecidas de pensar e fazer arte. “Poetas. Sem reminiscências livrescas.
Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia.” O
manifesto desenvolve-se num tom de paródia e de festa,
de prosa poética
pautada com frases aforísticas. Nele se expressa que o Brasil passe a ser uma cultura
de exportação, à
semelhança do que foi o produto pau-brasil,
que a sua poesia seja um produto cultural que já não deve nada à cultura
europeia e que antes pelo contrário pode vir a influenciar esta. Oswald defende
uma poética espontânea e original, as formas de
arte estão dominadas pelo espírito da imitação, o naturalismo era uma cópia balofa. "Só
não se inventou a máquina de fazer versos — já havia o poeta parnasiano".
Afirma assim uma poesia que tem que ser revolucionária. "A poesia existe
nos fatos". “O trabalho contra o detalhe naturalista — pela síntese,
contra a morbidez romântica. — pelo equilíbrio geômetra, e pelo acabamento
técnico, contra a cópia, pela invenção e pela surpresa”.
Talvez não seja muito errado afirmar que este manifesto
poderia ser considerado como um futurismo tropicalista.
“Temos a base dupla e presente — a floresta e a escola. A raça crédula e
dualista e a geometria, a álgebra e a química logo depois da mamadeira e do chá
de erva doce...”
O manifesto propõe, sem perder o humor e a ingenuidade, a
descolonização de seu país pelas vias de um levante popular, e acima de tudo
negro, quando expõe uma sugestão de Blaise Cendrars: "– Tendes as
locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em
que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso
destino".
O Manifesto
Antropófago foi publicado no primeiro exemplar da Revista de Antropofagia.
Os exemplares desta publicação eram numerados como primeira dentição, segunda
dentição, etc.
Este manifesto constitui-se
numa síntese de alguns pensamentos do autor sobre o Modernismo Brasileiro.
Inspirou-se explicitamente em Marx, Freud, André Breton, Montaigne e Rousseau
e atacava explicitamente a missionação, a herança portuguesa e o padre Antônio Vieira:
Antes de os portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a
felicidade; Contra Goethe (que
simboliza a cultura clássica europeia). Neste sentido, assina o manifesto como
tendo sido escrito em Piratininga (nome
indígena para a planície de onde viria
a surgir a cidade de São Paulo),
datando-o esclarecedoramente como ano 374, da Deglutição do Bispo Sardinha,
o que denota uma recusa radical, simbólica e humoristicamente,
do calendário
gregoriano vigente.
Por outro lado, a técnica de escrita explorada no
Manifesto, bem como em todos os poemas mais significativos do autor antes e
após este, aproximam-se mais das chamadas vanguardas
positivas, mais construtivas que o Surrealismo de Breton e continuam
propondo uma língua nacional diferente do português. O desejo de criar uma
língua brasileira se manifestaria em sua obra, principalmente, por um
vocabulário popular, explorando certos "desvios" do falante brasileiro
(como sordado, mio, mió), intentando o "erro criativo". Este sonho
somente se pareceria concretizar posteriormente, no entanto, na prosa de Guimarães Rosa e na poesia de Manoel de Barros.
Há várias ideias que estão implícitas neste manifesto, em
que Oswald se expressa de maneira poética. Essas não são exploradas com as do
sistemático, seu amigo Mário de Andrade. Uma destas ideias é conhecida da antropofagia e tem a ver com o papel
simbólico do canibalismo nas
sociedades tribais/tradicionais. O canibal nunca come um ser humano por nutrição, mas sim sempre para incluir em si
as qualidades do inimigo ou de alguém. Assim o canibalismo é
interpretado como uma forma de veneração do inimigo. Se o inimigo tem valor
então tem interesse para ser comido porque assim o canibal torna-se mais forte.
Oswald atualiza este conceito no fundo expressando que a cultura brasileira é
mais forte, é colonizada pelo europeu mas digere o europeu e assim torna-se
superior a ele: Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a
garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Matias.
Comi-o.
Outra
ideia avançada é a de que a maior revolução de todas vai se realizar no Brasil:
Queremos a revolução Caraíba.
Outra ideia é a de que o Brasil, simbolizado pelo índio,
absorve o estrangeiro, o elemento estranho a si, e torna-o carne da sua carne,
canibaliza-o. Oswald, metaforicamente, recusa as religiões do meridiano que
são aquelas de origem oriental e semita que deram origem
ao cristianismo. Sendo a favor das religiões
indígenas, com a sua relação direta com as forças cósmicas.
O manifesto insiste muito nas ideias de Totem e
Tabu, expressas em um trabalho de Freud
de 1912. Segundo Freud o Pai da tribo teria
sido morto e comido pelos filhos e posteriormente divinizado. Tornado Totem e
por isso mesmo sagrado, consequentemente criaram-se interdições à sua volta.
Citando o manifesto: Antropofagia. A transformação
permanente do Tabu em totem. A antropofagia segundo Oswald é uma inversão
do mito do bom selvagem de Rousseau,
que era puro, inocente, edênico. O índio passa a
ser mau e esperto, porque canibaliza o estrangeiro, digere-o, torna-o parte da
sua carne. Assim o Brasil seria um país canibal. O que é um ponto de vista
interessante porque subverte a relação colonizador (ativo)/colonizado
(passivo). O colonizado digere o colonizador. Ou seja, não é a cultura
ocidental, portuguesa, europeia, branca, que ocupa o Brasil, mas é o índio que
digere tudo o que lhe chega. E ao digerir e absorver as qualidades dos
estrangeiros fica melhor, mais forte e torna-se brasileiro.6
Assim o Manifesto Antropófago, embora seja
nacionalista não é xenófobo, antes pelo contrário é xenofágico: Só me
interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.. Por isso, o
antropófago Oswald seria um vanguardista, e teria sido o primeiro brasileiro,
cronologicamente, a influenciar o movimento literário brasileiro de maior
repercussão internacional, o concretismo, bem como, talvez indiretamente, ao
poeta brasileiro mais aclamado nos círculos literários da atualidade, Manoel de
Barros, o qual se diz um poeta da "vanguarda primitiva".
Oswald de Andrade já foi retratado como personagem no
cinema e na televisão, interpretado por Colé Santana no filme Tabu (1982); Flávio Galvão e
Ítala Nandi, no filme O Homem do
Pau-Brasil (1982); Antônio Fagundes,
no filme Eternamente Pagu
(1987); e José Rubens Chachá,
nas minisséries Um Só Coração (2004)
eJK (2006).
As ideias de Oswald de Andrade influenciaram também
diversas áreas da criação artística: na música, o tropicalismo; na poesia, o movimento dos
concretistas; e no teatro, grupos como Teatro Oficina.
Além dos manifestos Poesia
Pau-Brasil (1924) e Antropófago
(1928), Oswald escreveu: Poesia Sendo
o mais inovador da linguagem entre os modernistas, abriu caminhos que
influenciaram muito a poesia brasileira posterior (como a de Carlos
Drummond de Andrade, João Cabral de
Mello Neto, o Concretismo e Manoel de Barros), bem como a obra do poeta
francês Blaise Cendrars,
considerado um dos 10 maiores poetas franceses do século XX pelo poeta Paul Eluard.
1925: Pau-Brasil
1927:
Primeiro Caderno do Aluno de Poesia
Oswald de Andrade
1946:
O Escaravelho de
Ouro
1947:
O Cavalo Azul
1947:
Manhã
1950:O Santeiro do Mangue
Seus romances ainda não são devidamente conhecidos, porém
Memórias
Sentimentais de João Miramar, por exemplo, foi escrito antes de
1922, antecipando toda a linguagem do modernismo brasileiro.
1922-
1934: Os Condenados (trilogia)
1933:
Serafim Ponte
Grande
1943:
Marco Zero I - A Revolução Melancólica
1945:
Marco Zero II - Chão
1916:
Mon Couer Balance e Leur Ame (parceria com Guilherme de Almeida)
1934:
O Homem e o Cavalo
1937:
A Morta pelo homem "
1937:
O Rei da Vela; primeira encenação de
seus textos em 1967, pelo Teatro Oficina de São Paulo
1911
a 1918: O Pirralho, periódico literário, político e de humor.9
1954:
Um homem sem profissão. Memórias e confissões. I. Sob
as ordens de mamãe, com capa de Nonê
e prefácio de Antonio
Cândido.
1990: Dicionário
de bolso, publicação póstuma organizada por Maria Eugênia
Boaventura a partir de manuscritos do espólio do autor contendo verbetes
jocosos.
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