domingo, 24 de março de 2019

31 ANOS DO FALECIMENTO DO ESCRITOR HÉLIO PELLEGRINO - 23 DE MARÇO DE 1988

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31 a. falece o escritor HÉLIO PELLEGRINO. Um dos mais importantes psicanalistas do BRASIL, nasceu em 1924 e começou sua carreira em MINAS GERAIS. Em 1940, passou a viver no RIO DE JANEIRO onde, vinte anos depois, organizou manifestações contra o regime militar. Em 1980, participou de um debate sobre a psicanálise, em que denunciou os altos custos dos tratamentos e a ignorância da maioria de seus colegas sobre a obra de FREUD. Suas declarações foram tão polêmicas que ele acabou sendo expulso da Sociedade Psicanalítica do RIO, em janeiro de 1981. Mais tarde, foi reintegrado à Sociedade por ação da justiça. HÉLIO foi amigo de FERNANDO SABINO, PLAULO MENDES CAMPOS, OTTO LARA RESENDE e NÉLSON RODRIGUES. O sono tornou-se inquieto por alguns instantes. Sonhei que estavam me matando”, comentou o psicanalista HÉLIO PELLEGRINO com a mulher, a escritora e tradutora LYA LUFT, durante a madrugada da segunda-feira, dia 21 de março de 1988. Tema comum na obra de ambos, a morte parecia ser apenas objeto de inspiração. Infelizmente, não era – incomodado por um desconforto gástrico, PELLEGRINO foi internado naquela manhã, depois de constatado um pequeno infarto. E, quando parecia que a recuperação se finalizava, uma parada cardíaca fulminante o mata. Falece em 23 de março de 1988. Estava com 64 anos e com muitos projetos. Na cabeceira do hospital, repousava o livro LES GRANDS CIMETIÈRES SOUS LA LUNE, de GEORGES BERNANOS (1888-1948), um libelo contra a ditadura espanhola de FRANCO, que ambos liam juntos. A perda súbita transtornou LYA. Suspensa da realidade pela dor, ela decidiu transformar o travo no coração em poesia, a fim de se salvar da loucura e até da própria morte. Nascia O LADO FATAL, caminho que encontrou para perpetuar uma relação tão bruscamente interrompida. Trata-se de 40 poemas escritos num rompante, um por dia, que conciliam sentimentos contraditórios como raiva e pesar, esperança e desalento, dor e esperança. O perfil fragmentado do homem que tanto amou. “Foi o caminho que encontrei para compartilhar com todos minha convivência com um alguém particular”, comenta LYA que, anos depois, ao iniciar uma nova vida, decidiu tirar o livro de circulação – não renegava a obra, mas acreditava que o sentimento ali traduzido tornou-se particular.  A força do O LADO FATAL, porém, acabou se impondo. Depois de se habituar a ser cobrada pelos leitores e de acompanhar infinitas reproduções dos versos na Internet, LYA telefonou para LUCIANA VILLAS-BÔAS – diretora editorial da RECORD (que publica a obra da autora) e batalhadora pela volta da obra às livrarias – e concedeu o esperado “sim”. “O tempo passou, encontrei uma nova felicidade pessoal. Tais mudanças me convenceram de que o livro não pertence a mim, mas aos meus leitores.” LYA e HELIO tiveram um relacionamento curto (27 meses) mas intenso. Eles se conheceram em abril de 1985, durante um congresso de escritores em SÃO PAULO. Respeitavam-se, mas sabiam apenas o nome do outro. Foram apresentados por NÉLIDA PIÑON e conversaram pouco mais de 20 minutos, tempo suficiente para despertar mútua curiosidade. Ele começou a ler seus romances e a telefonar para PORTO ALEGRE – revelou uma visão particular da obra dela que o encantou. Nove meses depois, LYA tomou a decisão: em uma noite de chuva, fez as malas e tomou um avião para o RIO, deixando para trás um sólido casamento de 22 anos com o filólogo CELSO LUFT, uma grande casa, três filhos. “Rezava para o avião cair, para eu não ter de enfrentar a situação”, disse, em uma entrevista dada na época. Felizmente, nada aconteceu, apenas o início de uma nova fase. Ela estava com 46 anos; ele, com 61 e também uma consolidada história de vida (dois casamentos, seis filhos). Pareciam, no entanto, jovens fazendo descobertas. “Aquele que amei era um visionário: levava-me à sua terra, onde, ébrios de tanta luz e tanto céu, percorríamos a sua juventude”, diz ela, no poema 12. “Quem eu amei era da banda dos visionários: capaz de morrer sem abdicar do sonho.” Ágil, inquieto, PELLEGRINO sempre soube que amor e morte caminham juntos. Tais temas fascinavam o casal, interessado em um assunto comum: a alma humana. O psicanalista, aliás, acostumara-se com a finitude desde jovem, quando, aos 18 anos, sofreu um infarto sério. Desde então, mantinha cuidados espartanos, vigiando a alimentação, tomando os remédios nos horários devidos. “Ele era um homem impaciente: brigava no trânsito, detestava filas, batia portas com força quando perdia coisas”, observa LYA no poema 16. Mais adiante, a redenção: “Mas quando um dia chorei porque falou alto comigo, mandou-me rosas que espalhei pela casa toda.” A separação foi tortuosa, imperdoável, mas deixou lições – o respeito pela morte fez com que LYA aprendesse a amar a vida.

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