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falece o escritor HÉLIO PELLEGRINO. Um dos mais importantes psicanalistas do
BRASIL, nasceu em 1924 e começou sua carreira em MINAS GERAIS. Em 1940, passou
a viver no RIO DE JANEIRO onde, vinte anos depois, organizou manifestações
contra o regime militar. Em 1980, participou de um debate sobre a psicanálise,
em que denunciou os altos custos dos tratamentos e a ignorância da maioria de
seus colegas sobre a obra de FREUD. Suas declarações foram tão polêmicas que
ele acabou sendo expulso da Sociedade Psicanalítica do RIO, em janeiro de 1981.
Mais tarde, foi reintegrado à Sociedade por ação da justiça. HÉLIO foi amigo de
FERNANDO SABINO, PLAULO MENDES CAMPOS, OTTO LARA RESENDE e NÉLSON RODRIGUES. O
sono tornou-se inquieto por alguns instantes. Sonhei que estavam me matando”,
comentou o psicanalista HÉLIO PELLEGRINO com a mulher, a escritora e tradutora
LYA LUFT, durante a madrugada da segunda-feira, dia 21 de março de 1988. Tema
comum na obra de ambos, a morte parecia ser apenas objeto de inspiração.
Infelizmente, não era – incomodado por um desconforto gástrico, PELLEGRINO foi
internado naquela manhã, depois de constatado um pequeno infarto. E, quando
parecia que a recuperação se finalizava, uma parada cardíaca fulminante o mata.
Falece em 23 de março de 1988. Estava com 64 anos e com muitos projetos. Na
cabeceira do hospital, repousava o livro LES GRANDS CIMETIÈRES SOUS LA LUNE, de
GEORGES BERNANOS (1888-1948), um libelo contra a ditadura espanhola de FRANCO,
que ambos liam juntos. A perda súbita transtornou LYA. Suspensa da realidade
pela dor, ela decidiu transformar o travo no coração em poesia, a fim de se
salvar da loucura e até da própria morte. Nascia O LADO FATAL, caminho que
encontrou para perpetuar uma relação tão bruscamente interrompida. Trata-se de
40 poemas escritos num rompante, um por dia, que conciliam sentimentos
contraditórios como raiva e pesar, esperança e desalento, dor e esperança. O
perfil fragmentado do homem que tanto amou. “Foi o caminho que encontrei para
compartilhar com todos minha convivência com um alguém particular”, comenta LYA
que, anos depois, ao iniciar uma nova vida, decidiu tirar o livro de circulação
– não renegava a obra, mas acreditava que o sentimento ali traduzido tornou-se
particular. A força do O LADO FATAL,
porém, acabou se impondo. Depois de se habituar a ser cobrada pelos leitores e
de acompanhar infinitas reproduções dos versos na Internet, LYA telefonou para
LUCIANA VILLAS-BÔAS – diretora editorial da RECORD (que publica a obra da
autora) e batalhadora pela volta da obra às livrarias – e concedeu o esperado
“sim”. “O tempo passou, encontrei uma nova felicidade pessoal. Tais mudanças me
convenceram de que o livro não pertence a mim, mas aos meus leitores.” LYA e
HELIO tiveram um relacionamento curto (27 meses) mas intenso. Eles se
conheceram em abril de 1985, durante um congresso de escritores em SÃO PAULO.
Respeitavam-se, mas sabiam apenas o nome do outro. Foram apresentados por NÉLIDA
PIÑON e conversaram pouco mais de 20 minutos, tempo suficiente para despertar
mútua curiosidade. Ele começou a ler seus romances e a telefonar para PORTO
ALEGRE – revelou uma visão particular da obra dela que o encantou. Nove meses
depois, LYA tomou a decisão: em uma noite de chuva, fez as malas e tomou um
avião para o RIO, deixando para trás um sólido casamento de 22 anos com o
filólogo CELSO LUFT, uma grande casa, três filhos. “Rezava para o avião cair,
para eu não ter de enfrentar a situação”, disse, em uma entrevista dada na
época. Felizmente, nada aconteceu, apenas o início de uma nova fase. Ela estava
com 46 anos; ele, com 61 e também uma consolidada história de vida (dois
casamentos, seis filhos). Pareciam, no entanto, jovens fazendo descobertas.
“Aquele que amei era um visionário: levava-me à sua terra, onde, ébrios de
tanta luz e tanto céu, percorríamos a sua juventude”, diz ela, no poema 12.
“Quem eu amei era da banda dos visionários: capaz de morrer sem abdicar do
sonho.” Ágil, inquieto, PELLEGRINO sempre soube que amor e morte caminham
juntos. Tais temas fascinavam o casal, interessado em um assunto comum: a alma
humana. O psicanalista, aliás, acostumara-se com a finitude desde jovem,
quando, aos 18 anos, sofreu um infarto sério. Desde então, mantinha cuidados
espartanos, vigiando a alimentação, tomando os remédios nos horários devidos.
“Ele era um homem impaciente: brigava no trânsito, detestava filas, batia
portas com força quando perdia coisas”, observa LYA no poema 16. Mais adiante,
a redenção: “Mas quando um dia chorei porque falou alto comigo, mandou-me rosas
que espalhei pela casa toda.” A separação foi tortuosa, imperdoável, mas deixou
lições – o respeito pela morte fez com que LYA aprendesse a amar a vida.
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