
EXTRAÍDO DE MEMÓRIAS DO VENTURA
65 a. do suicídio de GETÚLIO VARGAS. Desde a noite anterior, de 23 de
agosto de 1954, era grande a movimentação no PALÁCIO DO CATETE, que permaneceu
todo iluminado com suas janelas abertas; mais de 100 automóveis entraram e
saíram da sede do governo em poucas horas. O GENERAL ZENÓBIO DA COSTA, em
companhia do MARECHAL MASCARENHAS DE MORAES e do GENERAL ODYLIO DENYZ, chegou à
sede do governo, nos primeiros minutos daquela terça-feira. O ministro da
GUERRA, primeiramente, conferenciou com o chefe da CASA MILITAR, GENERAL CAIADO
DE CASTRO e, a seguir, os três oficiais do Exército foram recebidos pelo
presidente GETÚLIO VARGAS, que estava acompanhado do ministro da Fazenda,
OSVALDO ARANHA, convocado um pouco antes e chegado em companhia de dois filhos.
ZENÓBIO deu ciência da gravidade da situação, “que já não podia ser debelada
por parte das Forças Armadas do Exército, contra as quais já se encontravam os
chefes militares de mar e ar e certo número dos de terra”. GETÚLIO disse que no
decorrer do dia convocaria o seu ministério para tomar uma deliberação. Nesse
momento, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), MARECHAL
MASCARENHAS DE MORAES, propôs ao presidente que a reunião fosse imediatamente
realizada, apesar do adiantado da hora. Aceita a sugestão, foi providenciada a
convocação dos ministros, que, em uma hora, começaram a chegar ao palácio.
Em NITERÓI, o governador do Estado do
RIO, ERNANI DO AMARAL PEIXOTO, genro do presidente, recebeu um telefonema de
BENJAMIM VARGAS dizendo: “A coisa está se agravando aqui”. Ao chegar sua esposa,
ALZIRA, disse-lhe “Vamos voltar imediatamente para o RIO”. Ela ainda protestou
: “Mas estou acabando de chegar de lá e não há nada”. AMARAL PEIXOTO,
precavido, tinha mandado segurar a barca e, a uma hora da manhã, chegaram ao
CATETE. O governador fluminense subiu ao gabinete do presidente que, naquele
exato momento, assinava um papel. Pensou que fosse algum documento lido na
reunião, mas depois, soube-se que se tratava da “CARTA TESTAMENTO”. Logo
depois, o ajudante de ordens avisou que os ministros já haviam chegado. GETÚLIO
levantou-se com a maior calma e disse: “Vamos descer”.
Às duas horas da madrugada, com a
presença de todos os titulares – exceto o ministro VICENTE RÁO, das Relações
Exteriores, que se encontrava doente em SÃO PAULO -, teve início, no salão de
banquetes do segundo andar, a histórica reunião ministerial presidida por
GETÚLIO, que se sentou na cabeceira, tendo à sua direita ALZIRA VARGAS DO
AMARAL PEIXOTO, na quina da mesa, seguindo-se no sentido anti-horário os
ministros OSVALDO ARANHA, da FAZENDA; GUILLOBEL, da MARINHA; EPAMINONDAS, da
AERONÁUTICA; APOLÔNIO SALES, da AGRICULTURA; o chefe do Estado-Maior das FORÇAS
ARMADAS, MARECHAL MASCARENHAS DE MORAES, por determinação especial do
presidente; HUGO DE FARIA, interino do TRABALHO; JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA, da
VIAÇÃO E OBRAS; MÁRIO PINOTTI, da SAÚDE; EDGAR SANTOS, da EDUCAÇÃO E CULTURA;
ZENÓBIO DA COSTA, da GUERRA; e TANCREDO NEVES, da JUSTIÇA. Em pé, à esquerda do
presidente, o governador ERNANI DO AMARAL PEIXOTO, e à sua direita, um pouco
mais afastados, ficaram MANECO VARGAS, JANGO GOULART, BENJAMIN VARGAS, os
deputados DANTON COELHO, EUCLYDES ARANHA e AUGUSTO DO AMARAL PEIXOTO, o vice
líder do governo, GENERAL CAIADO DE CASTRO, chefe do gabinete Militar (que
chegou depois, porque estava tomando medidas de segurança) e, ao fundo, bem de
frente para o presidente, estavam LOURIVAL FONTES, chefe do gabinete civil.
Outros auxiliares e amigos também entraram durante a realização da reunião.
GETÚLIO VARGAS abriu a sessão e expôs
em largos traços a situação, concedendo depois a palavra aos ministros
militares, que deram sua opinião. Falaram em seguida os ministros civis,
tecendo muitos comentários, muitas declarações de solidariedade e de
preocupação pela segurança pessoal do presidente e de sua família, porém, sem
que se tenha emitido uma opinião conclusiva, à exceção do ministro JOSÉ
AMÉRICO, que aconselhou a fórmula honrosa de uma licença, o que seria aceita, e
de OSVALDO ARANHA, que, tal como os três militares, lealmente se pronunciou pela
renúncia, reiterando, entretanto, o seu irrestrito apoio, caso o presidente
resolvesse resistir.
Por fim, o presidente concedeu a
palavra ao MARECHAL MASCARENHAS DE MORAES, que informou ter se reunido, na
tarde anterior, com os três chefes de Estado-Maior, e que assim podia fazer o
seguinte quadro fiel da situação das três Forças Armadas: a AERONÁUTICA estava
reunida, sob a orientação do BRIGADEIRO EDUARDO GOMES, e sugeria a renúncia
presidencial. A MARINHA também estava reunida com o ministro ligado aos seus
almirantes, que desejavam a renúncia presidencial. No EXÉRCITO, embora sob a
ação forte do GENERAL ZENÓBIO, os oficiais de postos menos elevados estavam
agitados. Não se poderia contar com boa parte deles.
O ministro da GUERRA protestou contra a
fidelidade das informações do seu chefe de Estado-Maior, GENERAL FIÚZA DE
CASTRO, ao que o marechal retorquiu que eram verdadeiras e ainda afirmou que a
resistência levaria à guerra civil.
ALZIRA VARGAS não agüentou e afirmou
que tinha feito vários contatos com oficiais do Exército leais e que todos
afirmaram que poderiam contar com o apoio necessário para a defesa do governo
do presidente GETÚLIO VARGAS e não satisfeita indagou aos ministros da
AERONÁUTICA e da MARINHA, se esse apoio também não poderia vir de suas armas.
O ministro da MARINHA, RENATO
GUILLOBEL, virou-se e disse: “Presidente, o seu destino é ser traído pelos
chefes militares”. O presidente pediu a opinião do GENERAL CAIADO, que opinou
pela resistência armada, quando o GENERAL ZENÓBIO respondeu-lhe: “Neste caso,
com a devida permissão do presidente, eu lhe darei o comando da infantaria, que
vai resistir ...”
O GENERAL CAIADO, herói da Segunda
Guerra Mundial, quando comandou justamente o 1º Regimento de Infantaria da FEB,
respondeu aceitando o alvitre.
O deputado DANTON COELHO interferiu,
intempestivamente, adjetivando a senhora genitora do ministro do ministro
ZENÓBIO e ainda, em alto e bom som, declarou: “Todo esse movimento não é contra
o presidente e sim contra o senhor, general, pois o Exército não ficou
satisfeito com sua nomeação para o ministro da GUERRA”.
O titular da GUERRA protestou, de modo
veemente, ante tal assertiva. DANTON, respondendo, o chamou de traidor. Ainda
em pleno debate, o GENERAL ZENÓBIO foi várias vezes interpelado, não só pelo
presidente, como também por ALZIRA, sobre as possibilidades de resistência,
respondendo sempre que “estava pronto para resistir, embora sem certeza de
êxito, pois contava apenas com parte do Exército”.
Nesse momento, o chefe de polícia
CORONEL PAULO TORRES, que se encontrava na varanda ao lado do salão, ouvindo os
acalorados debates, chamou o governador AMARAL PEIXOTO e disse: “Se o
presidente der a ordem, eu prendo esses generais, porque eles não têm comando.
A informação que eu tenho é de que o pessoal da VILA está muito firme ao lado
do presidente”.
Admitida a falta de apoio militar ao
presidente, passou-se a cogitar da renúncia ou da resistência armada e,
finalmente, de uma terceira hipótese, o licenciamento do presidente da
República.
Diante das vacilações de seus ministros
e dos incidentes que estavam tumultuando aquele conselho, o presidente GETÚLIO
VARGAS, desassombradamente, tomou a palavra e encerrou definitivamente os
debates nos seguintes termos: “Não me interessam a minha segurança e a de minha
família, e sim a situação do país. Já que o ministério não chegou a uma
conclusão, eu vou decidir. Determino que os ministros militares mantenham a
ordem pública. Se a ordem for mantida entrarei com um pedido de licença. Em
caso contrário os revoltosos encontrarão aqui o meu cadáver”.
Em seguida retirou-se sob grande salva
de palmas, abraçando sua filha ALZIRA VARGAS DO AMARAL PEIXOTO. Ao sair,
determinou ao governador fluminense: “O senhor redija uma nota sobre isso”, a
qual foi feita juntamente com TANCREDO e OSVALDO ARANHA. Enquanto isso os
auxiliares de governo esvaziavam as gavetas e embalavam todos os documentos
para serem transferidos para outro local.
Eram 4 horas e 20 minutos, estava finda
a reunião e aparentemente superada a gravíssima crise nacional, sem
derramamento de sangue, graças à decisão do presidente VARGAS, que preferiu
deixar o posto. O presidente chamou JOÃO GOULART e entregou um envelope
fechado, sem nada escrito, e recomendou que fosse para o RIO GRANDE DO SUL,
para que ficasse afastado do torvelinho da capital do país e ainda lhe disse
que só lesse a carta quando chegasse ao sul.
O MARECHAL MASCARENHAS observou que o
ministro ZENÓBIO e o GENERAL DENYS estavam visivelmente preocupados,
provavelmente sobre a reação dos seus comandados quanto à aceitação do ato
presidencial de simples licenciamento e não de renúncia.
A chamado do ministro OSVALDO ARANHA,
os três militares retornaram e permaneceram até às 5:10 horas, quando foi
entregue uma nota oficial, expressando a decisão do presidente: “O presidente
da República reuniu hoje o ministério para exame da situação político-militar
criada no país. Ouvidos os ministros, cada um de per si, foram debatidos
longamente os diversos aspectos da crise, e as suas graves conseqüências.
Deliberou o presidente GETÚLIO VARGAS, com integral solidariedade dos seus
ministros, entrar em licença, passando o governo ao seu substituto legal, desde
que seja mantida a ordem, respeitados os poderes constitucionais e honrados os
compromissos solenemente assumidos perante a nação pelos oficiais-generais de
nossas Forças Armadas. Em caso contrário, persistirá inabalável no seu
propósito de defender as suas prerrogativas constitucionais com sacrifício, se
necessário de sua própria vida”. A imprensa, acreditada no palácio, recebeu a
nota do chefe do gabinete civil, LOURIVAL FONTES, que foi lida pelo jornalista
HÉRBERT MOSES, presidente da Associação Brasileira de Imprensa, que lá se
encontrava. Enquanto realizava a reunião ministerial, CAFÉ FILHO declarou aos
jornalistas, em sua residência que ignorava toda e qualquer informação a
respeito da renúncia do presidente.
Nas imediações do CATETE, grande era a
movimentação de populares, a maioria contrária a GETÚLIO VARGAS, e de carros
que chegavam e entravam pelos portões do palácio, apesar das ruas próximas
estarem interditadas. Ainda no meio da reunião, a rádio TUPI conseguiu romper a
censura existente, sendo a primeira a divulgar a falsa notícia de que o presidente VARGAS havia renunciado.
Taxistas comemoraram a divulgação da informação. Nesse momento, CAFÉ FILHO, de
pijama, recebeu os primeiros abraços em sua residência de precipitados amigos e
dos puxa-sacos de sempre.
O BRIGADEIRO NERO MOURA, ex-ministro da
AERONÁUTICA, tentou às 4 horas chegar ao palácio, mas foi barrado por tropas
militares ainda na rua do CATETE. Melhor sorte teve o prefeito do DISTRITO
FEDERAL, CORONEL DULCÍDIO CARDOSO, que conseguiu entrar na sede do governo logo
depois.
O BRIGADEIRO EDUARDO GOMES estava no
Quartel General aguardando os acontecimentos. A RÁDIO GLOBO começou também a
transmitir falsas notícias de renúncia, intercaladas com marchas militares. A
divulgação da renúncia pelas emissoras de rádio foi recebida por foguetes em
vários pontos da cidade.
ALZIRA, juntamente com seu marido
ERNANI DO AMARAL PEIXOTO e o ministro OSVALDO ARANHA, foi até o quarto do
presidente. Ela entrou e disse que os dois estavam ali para mostrar a nota, a
resposta foi seca: “O que eles resolverem, está resolvido”. Estava totalmente
desinteressado. ALZIRA falou ainda a seu pai que “faria uma traquinagem”, pois
havia falado com oficiais leais na VILA MILITAR e eles haviam dito que “ficasse
descansada, porque a VILA estava firme”; no que seu pai respondeu: “Não
adianta, o ZENÓBIO já está convidado pelo CAFÉ para continuar no ministério”.
Ela surpresa, indagou o porquê de ele não haver dito antes. GETÚLIO com desdém
respondeu: “o que iria adiantar?”
O ministro da GUERRA, quando retornou
ao PALÁCIO DUQUE DE CAXIAS, convocou uma reunião com todos os generais para as
6 horas e 30 minutos, em seu gabinete. LOURIVAL FONTES anunciou à imprensa:
“CAFÉ tomará posse logo mais à tarde”.
Com meia hora de atraso, teve início a
reunião com os generais, e ZENÓBIO explicou a todos a decisão tomada. Ao ser
indagado: “Mas depois dessa licença, o presidente volta?” – acredita-se que a
pergunta tenha sido feita pelo GENERAL FIÚZA DE CASTRO; o ministro da GUERRA
respondeu: “Não, é claro que não!”.
Presente como testemunha do fato, o
general MORAES ÂNCORA, ex-chefe de polícia e muito amigo do presidente, foi ao
CATETE e contou ao GENERAL CAIADO DE CASTRO, na presença de BEJO VARGAS, que
havia subido ao quarto do seu irmão GETÚLIO, e participado o grave ocorrido no
ministério da GUERRA, quando o presidente teria perguntado: “Então estou deposto?”;
e BENJAMIN ainda acrescentou que “tinha sido intimado a depor no GALEÃO”. O
presidente, contrariado, disse: “Não, você não vai. Eles que venham ouvir você
aqui. Eu ainda sou o presidente!”
GETÚLIO pediu para seu irmão descer o
obter mais informações. Ele ficou sozinho até por volta das 7 horas, quando foi
procurado pelo barbeiro, que veio perguntar se queria fazer a barba. Disse que
não e dispensou-o dizendo que queria descansar um pouco mais. Pouco depois,
deixou o quarto e foi até o gabinete de trabalho que ficava ao lado. Ainda de
pijama, fora buscar o revólver que estava guardado no cofre do gabinete.
Às 8 horas e 35 minutos, exatamente, o
presidente da República GETÚLIO DORNELLES VARGAS, de 72 anos, que havia
governado o BRASIL por quase duas décadas, colocou fim à sua vida com um
disparo em seu coração. Dia 24 de agosto era data de aniversário de seu filho
caçula, GETULINHO, que havia falecido em SÃO PAULO, em 1943, com apenas 23
anos, vítima de poliomielite.
O tiro foi ouvido por aqueles que estavam
por perto. A primeira pessoa a entrar no quarto do presidente foi sua esposa,
dona DARCY (pronuncia-se DÁRCI), que dormia no quarto ao lado e entrou por uma
porta interna. Ao ver o marido, que ainda vestia um pijama, com as pernas para
fora da cama e com um revólver “COLT”, calibre 32, carga dupla, com o cabo de
madrepérola, na sua mão direita, mortalmente ferido, desesperada gritou:
“GETÚLIO, POR QUE FIZESTE ISTO?”. Dona DARCY SARMANHO VARGAS viveu nesse dia
outro drama: sua irmã, ADA MOTTA, que residia no RIO GRANDE DO SUL, ao ouvir a
notícia da morte do cunhado presidente pelo rádio, sofreu um infarto fatal.
A seguir chegou o ajudante de ordens,
MAJOR HERNANI FITTIPALDI, que estava na porta do elevador do 3º andar, ala
residencial do Palácio. O GENERAL CAIADO DE CASTRO ao saber da triste
ocorrência teve um desfalecimento.
Sua filha ALZIRA falava por telefone
com oficiais de confiança da VILA MILITAR, que apoiavam o presidente, quando
alguém a segurou pelos ombros e gritou: “ALZIRA, seu pai!”. Ela saiu correndo
em direção ao aposento presidencial, como todos que estavam no PALÁCIO DO
CATETE naquele exato momento. Quando chegou, ele estava agonizando, e ela,
chorando, jogou-se sobre ele. Com ajuda do ministro da Justiça, TANCREDO NEVES,
conseguiram colocar o corpo sobre a cama, no lado esquerdo do leito. Procuraram
estancar o sangue, mas não conseguiram. Ele, ainda com vida, lançou um olhar
circunvagante pelas pessoas que estavam no quarto. Quando se deteve com os
olhos em sua filha ALZIRA, sorrindo levemente e dando a impressão de
experimentar um frisson de emoção, ele morreu.
O médico FLÁVIO MIGUEZ DE MELO, colega
de turma de LUTERO, que o assistia, estava sentado ao lado dele com um aparelho
de pressão, balançando a cabeça, quis dizer que era inútil. Apesar disso, uma
ambulância do SAMDU foi chamada com urgência ao Palácio, mas o médico RODOLFO
SAMUEL MOREIRA, que foi atendê-lo, já o encontrou morto.
O governador AMARAL PEIXOTO conseguiu
tirar sua esposa do lado do pai, que, ainda muito abalada, foi colocada em uma
poltrona. Nesse momento, observou em cima do criado-mudo um envelope em branco,
ao abri-lo constatou que era um documento de despedida. Nessa hora, chegou ao
quarto OSVALDO ARANHA, que fora avisado da morte do presidente por BENJAMIM
VARGAS. AMARAL PEIXOTO entregou a OSVALDO a carta, uma ligação foi feita para a
rádio NACIONAL. O ministro da Fazenda tentou lê-la, mas não conseguiu, pois
começou a chorar copiosamente. Seu filho, EUCLIDES, emocionado, terminou por
ele.
Desde a divulgação da notícia da morte
do presidente, centenas de milhares de pessoas acorreram para o Palácio do
CATETE. O grande caixão negro, não podendo ser carregado em virtude do grande
número de pessoas, desceu pelas mãos dos presentes que se acotovelavam nos
degraus, passando sobre a cabeça de todos até chegar ao salão, onde foi
colocado na eça. Quando descia o esquife, alguém tentou se agarrar a um grande
lustre que iluminava a escadaria. Não agüentando o peso do pretenso Tarsan
tupiniquim, veio a cair sobre várias pessoas, ferindo-as.
Em todo o BRASL, o povo, em estado de
choque, saiu para prantear a memória de GETÚLIO VARGAS. O comércio, por meio da
Federação do Comércio, fechou suas portas em sinal de luto, bem como as
escolas, repartições públicas, clubes, fábricas. A bandeira nacional foi
hasteada no país inteiro a meio pau, em sinal de luto.
Pelo Decreto n º 36.114, de 24 de
agosto de 1954, JOÃO CAFÉ FILHO decretou luto oficial por oito dias:
O Presidente da República, usando da
atribuição que lhe confere o art. 87, item I, da Constituição e, tendo em vista
o disposto no art. 53 do Decreto n º 24.910, de 4 de maio de 1948, decreta:
Art 1º É decretado luto oficial por
oito dias, em sinal de pesar pelo falecimento do Presidente da República,
Doutor GETÚLIO DORNELLES VARGAS.
Art 2 º O presente decreto entra em
vigor na data de sua publicação.
RIO DE JANEIRO, 24 DE AGOSTO DE 1954,
133 º DA INDEPENDÊNCIA E 66 º DA REPÚBLICA.
CARTA–TESTAMENTO DE GETÚLIO VARGAS.
“Mais uma vez, as forças e os
interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos
grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e
venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade
social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha
subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais
revoltados contra o regime da garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários
foi detida no Congresso. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das
nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de
agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que
o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente. Nada mais
vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de
alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a
minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. E aos que pensam que me
derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto
para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de
ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o
preço de seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a
espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a
calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a
minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da
eternidade e saio da vida para entrar na história.”
GETÚLIO VARGAS foi chamado de PAI DOS
POBRES. O CHEFE. O HOMEM. Sua carta–testamento, na qual dá suas razões para o
gesto extremo, é um dos mais conhecidos documentos históricos.
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