85 a. nasce MAYSA no dia 6
de junho de 1936. Cerca de um mês antes de morrer, em 1977, em um trágico
acidente na ponte RIO-NITERÓI, MAYSA faria a última anotação em seu diário
particular. “Tenho 40 anos, 20 de carreira. Sou uma mulher só. O que dirá o
futuro?”. Não houve tempo, infelizmente, para que respondesse à própria
pergunta. Em seus muitos cadernos íntimos, cultivados religiosamente, com
capricho, desde a adolescência, MAYSA mantinha um embate permanente consigo
mesma. Fazia desabafos, promessas, confissões. De quando em vez, desenhava-se
de perfil, em pequenos auto-retratos rabiscados a lápis. Da ponta da caneta,
derramava-se a letra inclinada e nervosa, que não raro chegava a furar o papel,
denunciando a voracidade com que se entregava a esse ritual, reservado e
cotidiano. Os momentos mais marcantes dos diários de MAYSA estão na biografia
que é lançada em 2007, com 500 páginas, pela editora GLOBO, quando se completam
os 30 anos de morte daquela que foi uma das maiores divas da música brasileira
de todos os tempos. Além dos cadernos pessoais de MAYSA, a pesquisa para o
livro inclui pelo menos uma centena de entrevistas e o mergulho em cerca de 30
quilos de material, fornecidos pelo filho dela, o diretor de cinema e TV JAYME
MONJARDIM. São milhares de recortes de jornais e revistas, do BRASIL e dos
vários países por onde MAYSA viveu e cantou. Na FRANÇA, ITÁLIA, ESTADOS UNIDOS,
PORTUGAL e ESPANHA, por exemplo, gravou discos hoje raríssimos, disputados
avidamente por fãs e colecionadores. Aos 17 anos, saiu praticamente direto do
colégio interno para casar com o milionário ANDRÉ MATARAZZO. Mas, para
escândalo da tradicional família paulistana, logo trocaria o casamento pela
“duvidosa” profissão de artista. Desquitada, MAYSA dedicou-se à música, viveu
amores turbulentos, enfrentou problemas com a bebida. Engordou horrores,
quebrou tabus, enfrentou preconceitos. Foi alvo recorrente das revistas de
fofocas e, várias vezes, tentou o suicídio.
Foi a inconfundível deusa da música de fossa e da dor-de-cotovelo. A frase “meu mundo caiu”, que dá título a uma
de suas mais belas e doloridas composições, tornou-se bordão nacional para
definir a angústia amorosa e o desencanto radical. Mas os que conviveram com ela
também não esquecem de outro lado, menos conhecido, de MAYSA. Uma faceta
insuspeitada pelos que se acostumaram a ouvi-la cantar, de modo obsessivo, a
dor, o desespero e a separação. Isso mesmo. Os antigos amigos falam da
existência de uma MAYSA solar, irreverente, desbocada, dona de uma gargalhada
tonitruante, humor imprevisível, chegada a uma molecagem explícita. Para
compreender uma mulher complexa e controvertida como MAYSA, é preciso evitar o
estereótipo que ela mesma ajudou a construir em torno de si. A eterna cantora
dos amores frustrados tinha a exata consciência de que, à certa altura,
tornara-se refém da própria imagem pública. No fim da vida, recolhida à sua
casa de praia, em MARICÁ, longe dos holofotes da mídia, ensaiava um lento e
gradual reencontro consigo. “Não tenho medo da morte. Tenho a impressão de que
jamais morrerei”, disse, nessa época, a um repórter. “Continuo a mesma, apenas
encaro a vida com sereno otimismo”, completou. Em seu diário íntimo, porém,
revelava a dúvida que alimentava sobre as próprias palavras: “E se o amanhã não
chegar?”, indagava, na derradeira anotação de seu caderno. No dia 22 de janeiro
de 1977, perdeu a vida no acidente de carro na ponte RIO-NITERÓI. MAYSA é mãe
do hoje diretor de televisão, JAYME MONJARDIM. Uma rua no bairro da SAÚDE leva
o seu nome.

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