
270 a. nasce JOHANN WOLFGANG GOETHE,
filósofo, cientista e escritor alemão, em 28 de agosto de 1749. Falece em 22 de
março de 1832. O criado sobe as escadas e abre a porta do quarto. São seis
horas da manhă. A pálida luz da vela obriga-o a tatear pelo aposento, com
passos incertos. De repente, pára. Vê a pistola caída no chão. Pouco além, encontra-se
o amo. O sangue empoçado ao redor da cabeça. Na escrivaninha, algumas folhas de
papel: uma confissão desesperada de amor, uma paixão impossível por CHARLOTTE.
O jovem WERTHER está morto. Não sofre mais. ALEMANHA, 1774. JOHANN WOLFGANG
GOETHE pensa na repercussão do trágico fim de WERTHER, que havia provocado uma
comoção geral entre os jovens. Logo se multiplicam suicídios idênticos. O gesto
se havia tornado, em pouco tempo, sedutor, e a moda, alarmante, a ponto de
ficar conhecida como o mal do século. GOETHE observa o que está acontecendo e
sente-se profundamente amargurado. Afinal, WERTHER não tinha existido
verdadeiramente, era apenas uma criatura da sua fantasia, um personagem de
ficção. Aos 25 anos, GOETHE fica conhecido na EUROPA inteira, nos meios cultos
do NOVO MUNDO e até no ORIENTE, graças ao “caso WERTHER”. Mas, apesar da fama,
resta-lhe uma lembrança amarga do livro, condenado por todos aqueles que
entendiam a vida como luta e conquista e não como renúncia e fuga, e pela
Igreja, que o colocara no ÍNDICE DOS LIVROS PERDIDOS. Dois anos da publicação
do livro, GOETHE encontra CHARLOTTE BUFF. GOETHE não escapa à atração dessa
mulher, que, sendo casada, não corresponde aos seus sentimentos. Enquanto
escreve WERTHER, é CHARLOTTE quem lhe serve de modelo para a personagem
feminina do romance. Mas a obra se apóia também em outro fato: a surpresa e o
espanto causados pela morte de um colega da Universidade de LEIPZIG, que se
suicida para escapar a uma paixão sem esperança. WERTHER é, portanto, o fruto de
uma experiência real e dolorosa, transfigurada através da imaginação. Essa é a
razão por que o autor se refere ao romance que lhe trouxera popularidade como a
uma “confissão geral”. Afirmação verdadeira para toda sua obra, tão interligada
está, nela, vida e ficção. A experiência amorosa que lhe inspirara WERTHER não
fora à primeira nem a última. Dos quinze aos 74 anos GOETHE apaixona-se por
diversas mulheres. Aos dez anos, GOETHE presencia a ocupação de FRANKFURT pelos
franceses. O menino ouve falar a língua e entusiasma-se com as referências e os
elogios feitos aos escritores franceses: MOLIÈRE, RACINE, VOLTAIRE. A cultura
francesa, e não a alemã, portanto, é que incentiva as vocações literárias de
GOETHE, que já ensaiava os primeiros versos.
Precocidade intelectual, sim, mas também precocidade sentimental. Aos
doze anos o garoto tenta o namoro com a filha de uma atriz. Apesar da
insistência, a menina não quer saber dele. Três anos depois, volta a se
apaixonar: GRETCHEM. GOETHE passa as noites insones e agitadas pela paixão, mas
ainda não terá êxito. Em 1765 viaja para LEIPZIG, onde inicia os estudos de
Direito e conhece ANETTE SCHOMKOPF. E dessa vez tudo parece ir bem: é
correspondido em sua paixão. Mas, com o passar do tempo, a vida em LEIPZIG vai
aborrecendo GOETHE. Não está satisfeito nem com o que escreve nem com o
ambiente tradicionalista e acanhado, que não reconhece seu talento. Afasta-se
de tudo e prende-se desesperadamente a ANETTE. Torna-se impaciente, violento,
provoca cenas de ciúme que deixam a amada cada vez mais desgostosa. Enfim, ela
o abandona. LEIPZIG perde todo e qualquer atrativo para o jovem romancista.
Volta a FRANKFURT, doente e abatido. Durante a convalescença, sente-se invadido
por uma religiosidade mística que fundamentaria suas posições artísticas e
literárias posteriores, particularmente o FAUSTO: UMA TRAGÉDIA, AS AFINIDADES
ELETIVAS e o SEGUNDO FAUSTO. Reanima-o definitivamente a perspectiva de uma
nova viagem. ESTRASBURGO, 1770. O olhar segue as linhas da catedral e colhe silenciosamente
as íntimas conexões daquela obra–prima da arquitetura gótica. Gostaria de ficar
ali, deslumbrado, para sempre, observando o jogo de formas e luz, revelação
plástica de uma poderosa genialidade. Com a intenção de prosseguir os estudos
iniciados em LEIPZIG, encontram em ESTRASBURGO os elementos decisivos de sua
formação cultural. A catedral, cuja visão tanto o impressionara, despertaria o
gosto e o interesse pelas obras alemãs medievais. E um acontecimento ainda mais
decisivo o aguardava: o relacionamento com um professor da universidade,
HERDER. Sob a influência desse filósofo, GOETHE liberta-se dos rígidos padrões
clássicos franceses, interessando-se pela cultura grega, pelo ORIENTE, pela
IDADE MÉDIA e por SHAKESPEARE. HERDER também lhe abre os horizontes para a
valorização da poesia popular. Na época, os jovens intelectuais percebem que
HERDER não é o expositor de um rígido sistema filosófico, e sim o fermento de
novas ideias para a cultura alemã e universal. Reúnem-se, então, em torno dele.
O grupo, conhecido por “geração de 1750” – GOETHE, SCHILLER, KLINGER, LENZ,
entre outros -, inicia um movimento sem precedentes, o STURM UND DRANG
(denominação extraída do título da peça de KLINGER, que significa “Tempestade e
Ímpeto”). O movimento opõe ao ILUMINISMO, que domina a cultura européia da
época. Este afirma o predomínio da razão sobre os demais valores do homem e do
mundo. Aquele coloca a vida como valor supremo e recusa todas as normas que,
embora válidas racionalmente, podem limitar o desenvolvimento individual. O
STURM UND DRANG rompe de modo violento com conceitos e esquemas que regulam as
relações individuais e sociais, políticas e morais. Repercute profundamente na
arte, proclamando a liberdade absoluta do artista, cuja produção haveria de ser
expressão do seu poder criador e não fruto da obediência a preceitos e técnicas
formais preestabelecidos. A genialidade do artista é que ditaria as normas para
suas obras. O ímpeto com que os iniciadores do movimento defendem essas ideias
suscita, na ALEMANHA, uma verdadeira revolução em todos os campos da cultura e
da vida. Na literatura a aceitação é completa e apaixonada. São então
publicados WERTHER e os primeiros dramas de GOETHE. Em seguida, aparece OS
BANDOLEIROS, escrito por SCHILLER. De um momento para outro, “a geração de
1750” projeta no exterior uma literatura que nunca fora significativa. E agora
os papéis se invertem: os escritores alemães passam a influir sobre a produção
de outros povos. O STURM UND DRANG é um movimento de caráter nacional que
desencadeia o ROMANTISMO. GOETHE é a figura mais destacada, por sua força vital
e criadora, ao mesmo tempo reflexiva e turbulenta. Torna-se a personalidade
mais notável de ESTRASBURGO, e sua fama ultrapassa as fronteiras da ALEMANHA.
Suas obras são discutidas e aplaudidas. É o começo impetuoso de uma projeção
literária que não haveria de declinar. Durante o período em que vive em
ESTRASBURGO, GOETHE costuma fazer excursões para coletar documentos sobre a
poesia popular. Numa dessas buscas, conhece FRIEDERIKE BRION, a filha do
vigário de uma aldeia das proximidades. FRIEDERIKE reúne a graça da mulher
citadina e a vitalidade ingênua da camponesa. Mas as tarefas que o haviam
levado ao encontro com a jovem acabam por obrigá-lo a abandonar FRIEDERIKE.
Deve continuar o trabalho em outros
lugares. A imagem da moça continuaria em sua memória, e ele a imortalizaria na
personagem feminina de FAUSTO, MARGARIDA. GOETHE viaja muito e frequenta meios
sociais cultos. Durante o inverno de 1774 está de novo em FRANKFURT. Certa
noite é convidado a assistir a um concerto na casa de um rico negociante. Não
presta atenção à música, nem mesmo às conversas cultas sobre literatura. Só tem
olhos e ouvidos para LILI SCHONEMANN, filha do anfitrião, de apenas dezesseis
anos. Torna a vê-la alguns dias depois e percebe que LILI corresponde aos seus
sentimentos. O poeta fica de tal modo inflamado que quer casar-se
imediatamente. Porém a família de GOETHE se opõe, porque a moça não pertence à
nobreza. Perturbado pelo motivo e pela oposição, fica num estado de profundo
abatimento, e prefere não lutar por seu amor. Deixa LILI, embora viesse a
reconhecer, no fim da vida, que nunca estivera tão perto da verdadeira
felicidade, quanto na época daquele amor por LILI. O fracasso na vida amorosa
faz oposição a sua fama. Em 1775 o duque CARLOS AUGUSTO convida-o para
administrar o ducado de WEIMAR. Não se afasta, porém, de sua produção
literária, agora inspirada por CHARLOTTE DE STEIN, por quem se apaixona. Mas
CHARLOTTE não o ama. Extenuado pelo trabalho, abandona WEIMAR em setembro de
1786. Viaja para a ITÁLIA, realizando o sonho cultivado desde a infância,
quando contemplava as vistas de ROMA nos quadros da sala da casa paterna.
Durante os dois anos que passa na península Itálica, busca o segredo de uma
vida simples, ardente, colorida, como a descrita nas ELEGIAS ROMANA. Em 1787
regressa a WEIMAR. Numa manhă ensolarada uma jovem bate à porta de sua casa:
vai em busca de um favor para o seu irmão. Seu nome é CHRISTIANE VULPIUS, tem
23 anos e é operária numa fábrica de flores artificiais. GOETHE contempla as
linhas delicadas do seu rosto e os longos cabelos ondulados. Sente o coração
tocado pela beleza e pela simplicidade da moça. Surge mais uma paixão amorosa:
essa se tornaria real e duradoura. CHRISTIANE torna-se a companheira de GOETHE,
de quem tem um filho no dia de NATAL de 1789. O casal teria mais quatro filhos,
que morreriam logo após o nascimento. Mas somente dezoito anos depois GOETHE
resolveria casar-se com ela. Em WEIMAR, o duque lhe havia retirado a maior
parte das funções administrativas. Agora só se ocupa dos assuntos culturais.
Sua grande preocupação é o teatro, que dirige a partir de 1791. Leva à cena
algumas de suas peças. O público não as aprova. Faltam a seus dramas vibração e
emoção, ao contrário do que acontece com os de SCHILLER, ídolo das platéias.
SCHILLER é admirador de GOETHE, e manifesta o desejo de poder desfrutar sua
amizade. Com essa intenção é que lhe escreve uma carta em junho e 1794,
convidando-o a colaborar numa revista que fundara. GOETHE aceita o convite “com
alegria e de todo o coração”. Trocam correspondência assídua, e as cartas
mostram a influência benéfica que cada um exerce sobre o outro. Nesse período a
produção literária de GOETHE aumenta, é fértil e intensa. Escreve HERMANN e
DOROTÉIA e OS ANOS DE APRENDIZAGEM DE WILHELM MEISTER, entre outros. Em 1805 os
dois amigos adoecem simultaneamente. GOETHE recupera-se aos poucos, mas o
estado de SCHILLER se agrava. Quando GOETHE recebe a notícia da morte do amigo,
confessa que acabara de perder metade de sua
existência. Para se consolar, tenta concluir um drama que SCHILLER
deixara inacabado, DEMETRIUS. Em 1808, com 59 anos, publica FAUSTO: UMA
TRAGÉDIA. É uma reelaboraçăo da HISTÓRIA DO DR. JOHANNES FAUSTO, trabalho de
autor anônimo publicado em FRANKFURT, em 1587. GOETHE dá nova dimensão à
lendária figura do FAUSTO, que vendeu a alma ao diabo. Reúne todas as audácias
de que é capaz, não apenas o mal como o bem, demonstrando que o diabólico e o
celestial se insinuam nas relações humanas de forma terrível e perigosa. Assim
como a de FAUSTO, a vida de GOETHE também oscilara entre a sombra e a luz. Em
22 de março de 1832, aos 83 anos, GOETHE está sentado em uma poltrona, ao lado
da cama. Seu estado de saúde havia piorado nos últimos dias, por causa de um
resfriado. Começa a amanhecer, mas o quarto ainda está escuro. GOETHE respira
com dificuldade. Faz um sinal ao criado, como se estivesse pedindo algo. O
criado aproxima-se e ouve suas últimas palavras: “ABRAM A JANELA DO QUARTO, PARA
QUE ENTRE MAIS LUZ”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário